Em uma noite inesquecível em São Paulo, o Opeth uniu a complexidade do novo álbum ao retorno avassalador dos vocais extremos, selando uma cumplicidade única e (excessivamente) íntima com o público.
No dia 06 de novembro de 2026, o Espaço Unimed recebeu o Opeth pela etapa sul-americana da turnê The Last Will & Testament, promovida pela Mercury Concerts. A apresentação veio em momento perfeito para suprir a alta expectativa deixada pelo set curto no Monsters of Rock 2025. Mesmo com pequenas intercorrências pontuais no som, a experiência imersiva do público seguiu satisfatória do início ao fim.
Mais do que uma simples exibição técnica de metal progressivo, a noite provou que o carinho mútuo entre a banda sueca e a plateia brasileira continua sendo um dos pilares mais sólidos de suas passagens pelo país.
A arte de transformar afinações em causos e conexão
Como de costume, o show foi marcado por uma atmosfera leve, agradável e carregada de afeto. O frontman Mikael Åkerfeldt deu um show à parte no carisma: entre uma música e outra, enquanto afinava sua guitarra, aproveitou para conversar intensamente e contar histórias que foram desde perrengues e emergências de banheiro até memórias de bastidores com outros artistas.
Em um momento de pura brasilidade, Mikael foi presenteado por um fã na grade com um disco de vinil da lendária banda progressiva brasileira dos anos 70 Som Imaginário — conhecida por ter acompanhado Milton Nascimento no início de sua carreira. Sempre demonstrando sua paixão pela música local e reforçando o carinho enorme que sente pelo Brasil, o vocalista ainda relembrou com carinho de Anders Nordin, um dos primeiros bateristas da história do Opeth, que é brasileiro.
- Leia também: Opeth resgata a brutalidade sem abandonar a sofisticação em The Last Will and Testament
As interações não pararam por aí. Mikael relembrou a última passagem do grupo pelo país no Monsters of Rock, comentou sobre o show de despedida do Sepultura que ocorria na mesma data na capital paulista e celebrou, visivelmente satisfeito, a honra de ter trabalhado com o ícone do rock progressivo Ian Anderson (Jethro Tull) no novo álbum da banda.
O público respondeu com entusiasmo e bom humor a cada fala. Em uma das pausas, a plateia paulista puxou em coro o clássico “lindo, tesão, bonito e gostosão”, deixando Mikael genuinamente confuso no palco ao perguntar: “O que vocês estão dizendo?”.

Uma viagem equilibrada pelas décadas do Opeth
Se a conversa no palco esbanjou simpatia, o setlist entregou uma verdadeira viagem pela discografia da banda. Como esperado, o novo trabalho The Last Will and Testament teve seu espaço garantido com performances marcantes das faixas “§1”, “§3” e “§7”, intercaladas com surpresas que passearam por quase todas as fases do grupo.
A era dos anos 2000 foi representada em grande estilo por hinos soberbos como “The Drapery Falls”, “Windowpane”, “Deliverance” e a monumental “The Grand Conjuration”. Da década de 2010, vieram faixas como “The Devil’s Orchard” e “Hjärtat vet vad handen gör” — esta última destacando-se por ser uma das poucas composições cantadas em sua língua materna, o sueco. Houve até espaço para um momento inusitado e relâmpago com o cover de “You Suffer”, clássico do Napalm Death.
No entanto, o pico de catarse e celebração da noite esteve, sem dúvidas, nos clássicos dos anos 1990. Músicas como “Demon of the Fall” e “Godhead’s Lament” resgataram a era de ouro do death metal da banda. O resgate dessas canções reforçou o retorno dos vocais guturais — elemento que havia sido deixado de lado nas produções dos últimos anos e que voltou com força total no novo disco.

A nova era do Opeth: peso, melodia e dinamismo ao vivo
A atual fase do Opeth representa um retorno triunfal às suas raízes mais pesadas, unindo os vocais extremos ao vocal limpo em conjunto com as tradicionais construções melódicas e arranjos complexos do grupo. Essa combinação devolve à banda um dinamismo vital no cenário do metal progressivo, um gênero que frequentemente corre o risco de se perder em narrativas extensas ou na pura exibição de virtuosismo técnico.
O show no Espaço Unimed escancarou que essa dinâmica entre brutalidade, suavidade, melodia e técnica não funciona apenas nas produções de estúdio; ela é avassaladora ao vivo. É essa fluidez que faz com que uma apresentação densa passe num piscar de olhos, deixando na plateia a sensação contínua de que mais algumas horas de show ainda não seriam suficientes para preencher os corações dos fãs.

A certeza de um laço inquebrável
Ao final da noite em São Paulo, o Opeth reafirmou por que ocupa um lugar tão singular no coração do público brasileiro. A capacidade de transitar entre a agressividade do death metal e a delicadeza do prog setentista com extrema naturalidade — aliada à simplicidade de Mikael Åkerfeldt no palco — transformou a data em mais um capítulo inesquecível dessa trajetória.
Mesmo suprindo a lacuna deixada pelo setlist reduzido do festival no ano anterior, o grupo sueco despediu-se deixando a certeza de que, não importa quantas vezes retornem a São Paulo, o tempo ao lado deles sempre parecerá curto demais.

Setlist Opeth — 06/11 em São Paulo
Set principal
Seven Bowls (Aphrodite’s Child cover)
§1
Hjärtat vet vad handen gör
Godhead’s Lament
§7
The Devil’s Orchard
Windowpane
The Grand Conjuration
Demon of the Fall
§3
The Drapery Falls
Hex Omega
Encore
You Suffer (Napalm Death cover)
Deliverance
Fotos do show em São Paulo: Ingrid Natalie (Femmale Rock Squad)




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