Entre o death, o progressivo e atmosferas sombrias, o Opeth entrega o brilhante The Last Will and Testament, álbum conceitual que ainda conta com a participação de Ian Anderson, do Jethro Tull, e Joey Tempest, do Europe.

Ao longo de sua trajetória, o grupo sueco Opeth construiu uma identidade marcada pela alternância entre riffs extremos, violões delicados, harmonias elaboradas e estruturas que desafiam os limites convencionais da composição. Em The Last Will and Testament, décimo quarto álbum de estúdio, Mikael Åkerfeldt e seus companheiros retomam os vocais guturais, recuperando uma faceta que havia ficado ausente dos três discos anteriores, sem abrir mão da sofisticação desenvolvida durante a fase mais progressiva da banda.

Lançado em 22 de novembro de 2024 pela Reigning Phoenix Music, em parceria com o selo Moderbolaget, o trabalho traz, ainda, a participação de Ian Anderson, líder do Jethro Tull, e Joey Tempest, do Europe.

Tudo começa com o testamento

O conceito gira em torno da leitura do testamento de um patriarca autoritário, religioso e conservador, cuja morte desencadeia a revelação de segredos familiares, traições e ressentimentos. Cada uma das sete primeiras faixas corresponde a uma seção do documento, enquanto “A Story Never Told” encerra o álbum sob outra perspectiva narrativa. A história não funciona apenas como pano de fundo para as músicas: ela se reflete nas mudanças de atmosfera, nas intervenções vocais e na maneira como as composições alternam brutalidade e contenção.

Musicalmente, The Last Will and Testament encontra um ponto de equilíbrio entre diferentes fases da discografia do Opeth. Os vocais guturais e os riffs de death metal convivem com teclados de inspiração setentista, passagens acústicas e estruturas progressivas repletas de mudanças rítmicas. Em vez de simplesmente reproduzir a sonoridade de clássicos como Blackwater Park e Ghost Reveries, o grupo incorpora esses elementos a uma linguagem que também carrega a influência dos trabalhos lançados após a guinada em direção ao rock progressivo.

Mikael Åkerfeldt, Martin Mendez, Fredrik Åkesson, Joakim Svalberg, Waltteri Väyrynen.
Foto: Terhi Ylimäinen

“§1” e “§2”: o retorno da face mais brutal

A abertura com “§1” deixa claro que o Opeth não pretende tratar o retorno dos vocais guturais como um recurso isolado. A música começa com uma atmosfera sombria, marcada por ruídos e uma linha de baixo ameaçadora, antes de desembocar em riffs pesados e mudanças de andamento que recuperam a agressividade característica da fase mais extrema do grupo. Åkerfeldt alterna os vocais guturais com interpretações limpas, enquanto a bateria de Väyrynen sustenta as transições com precisão e vigor. A participação falada de Ian Anderson reforça o caráter teatral da composição, transformando a leitura do testamento em parte integrante da experiência musical.

“§2” aprofunda essa abordagem, combinando passagens de death metal com trechos mais contidos, nos quais teclados e guitarras ajudam a construir uma atmosfera de tensão. As mudanças de dinâmica são fundamentais para o resultado: momentos de aparente tranquilidade cedem espaço a explosões de agressividade, sem que a composição perca sua coesão. As intervenções vocais adicionais, incluindo a participação de Joey Tempest, do Europe, ampliam a dimensão dramática da faixa e reforçam a sensação de que o ouvinte acompanha uma narrativa em pleno desenvolvimento.

Em ambas as músicas, o mérito está na maneira como o Opeth recupera sua linguagem extrema sem abandonar o refinamento dos arranjos. Os riffs não aparecem apenas como demonstrações de força, mas como elementos de uma construção que privilegia contrastes, tensão e movimento.

“§3” e “§4”: a complexidade como linguagem

“§3” apresenta um dos momentos mais complexos do repertório. As guitarras exploram riffs sincopados, passagens de andamento irregular e mudanças repentinas de direção, enquanto os teclados acrescentam texturas que remetem à tradição do rock progressivo dos anos 1970. A composição exige atenção, mas não se perde em virtuosismo gratuito. Cada mudança contribui para a sensação de instabilidade que atravessa o álbum, e o trabalho de Åkesson ganha destaque nos solos, integrados à estrutura em vez de interromper seu fluxo.

“§4” leva essa dinâmica a outro patamar. Com sete minutos de duração, a faixa alterna momentos de brutalidade, passagens atmosféricas e intervenções instrumentais que ampliam a dimensão cinematográfica do disco. Os vocais guturais surgem com força, mas dividem espaço com trechos delicados, nos quais as cordas, a flauta e os teclados acrescentam uma sensação de estranhamento. O contraste entre essas diferentes camadas é um dos grandes trunfos da composição, que consegue transitar entre o peso do death metal e a elegância do progressivo sem parecer dividida entre duas identidades incompatíveis.

A participação de Anderson é particularmente adequada a esse universo. Sua flauta não funciona apenas como uma referência ao Jethro Tull, mas como um elemento que amplia a atmosfera teatral e imprevisível da música. “§4” está entre os pontos altos do álbum justamente por demonstrar como o Opeth consegue transformar a diversidade de suas influências em uma linguagem própria.

“§5” e “§6”: o Opeth entre o experimental e o melódico

Em “§5”, a banda explora caminhos menos convencionais, incorporando elementos de música folclórica e passagens de caráter quase mediterrâneo a uma estrutura progressiva de forte personalidade. O violão assume papel importante em determinados momentos, enquanto o baixo de Méndez e a bateria de Väyrynen mantêm uma base rítmica dinâmica. As guitarras alternam entre riffs pesados e frases melódicas, criando uma composição que se destaca pela variedade de texturas.

A faixa demonstra que a complexidade do Opeth não depende apenas de mudanças bruscas de andamento ou de contrastes entre vocais limpos e guturais. Há também uma preocupação com timbres, ritmos e atmosferas que amplia o vocabulário musical do grupo. Embora algumas passagens exijam mais de uma audição para revelar todos os detalhes, o desenvolvimento é suficientemente orgânico para evitar que a música soe como uma coleção de ideias desconectadas.

“§6” recupera parte da agressividade das primeiras faixas, mas preserva a riqueza dos arranjos. As guitarras alternam riffs de peso considerável com passagens mais melódicas, enquanto os teclados ajudam a criar uma atmosfera sombria e levemente psicodélica. Åkerfeldt explora diferentes registros vocais, e a composição ganha força justamente por não permanecer muito tempo em uma mesma direção.

A sucessão de mudanças poderia comprometer a unidade da música, mas o Opeth demonstra domínio sobre o material. As transições são conduzidas com naturalidade, e a interação entre os instrumentos mantém o interesse mesmo nos momentos mais densos. É uma faixa que sintetiza bem a proposta do álbum: recuperar a agressividade do passado sem abrir mão das possibilidades abertas pela fase progressiva.

“§7” e “A Story Never Told”: o desfecho da narrativa

“§7” funciona como o clímax da leitura do testamento. A composição começa com uma atmosfera carregada de tensão e avança entre riffs extremos, passagens progressivas e intervenções vocais que reforçam o caráter dramático da história. As mudanças de intensidade acompanham a revelação dos últimos segredos do patriarca, enquanto a participação dos instrumentos de cordas amplia a sensação de solenidade e tragédia.

A música também concentra alguns dos elementos mais representativos da identidade do Opeth. Os vocais guturais convivem com melodias limpas, os riffs pesados dão lugar a trechos mais contemplativos e os teclados ajudam a conectar as diferentes seções. Em vez de buscar um encerramento convencional para a narrativa, a banda mantém a tensão até os momentos finais, preparando o terreno para a mudança de perspectiva que virá na faixa seguinte.

“A Story Never Told” não difere das outras faixas só por ter um nome completo, mas também por se afastar do peso predominante no restante do disco. A composição começa com arranjos orquestrais e uma abordagem vocal mais delicada, desenvolvendo-se gradualmente até alcançar um desfecho marcado por um solo de guitarra expressivo. Sem a presença dos vocais guturais, a faixa recupera o lado mais melancólico e contemplativo de Åkerfeldt, aproximando o álbum da tradição das baladas progressivas.

A escolha é coerente com a proposta narrativa. Depois de acompanhar a leitura do testamento e suas revelações, o ouvinte encontra uma composição que oferece outro tipo de resolução, menos agressiva e mais emocional. O encerramento não depende de uma explosão de peso para produzir impacto, sua força está na construção gradual da atmosfera e na maneira como a guitarra conduz a música até o final.

Foto: Terhi Ylimäinen

A brutalidade encontra a sofisticação

The Last Will and Testament é um dos trabalhos mais pesados do Opeth em muitos anos, mas sua principal qualidade está na maneira como a banda evita tratar o retorno dos vocais guturais como um simples exercício de nostalgia. A agressividade aparece integrada a composições que continuam valorizando estruturas elaboradas, passagens acústicas e atmosferas construídas com paciência. O resultado não é uma volta literal ao passado, mas uma síntese de diferentes momentos da trajetória do grupo.

A produção de Åkerfeldt e Stefan Boman favorece a definição dos instrumentos e a alternância entre passagens densas e momentos mais delicados. A bateria de Väyrynen acrescenta energia e precisão, enquanto Méndez mantém a solidez da base rítmica. Åkesson se destaca pelos solos e pela capacidade de transitar entre riffs extremos e frases melódicas, e Svalberg amplia o espectro sonoro com teclados que remetem tanto ao rock progressivo clássico quanto às atmosferas mais sombrias do metal.

A estrutura conceitual também merece destaque. Ao organizar sete composições como partes de um documento e reservar a última faixa para um desfecho narrativo distinto, o Opeth cria uma unidade que vai além da simples sucessão de músicas. Nem todos os momentos têm o mesmo impacto, e a densidade dos arranjos pode exigir uma escuta mais atenta, mas o conceito oferece um eixo para a variedade musical e ajuda a manter a coesão do conjunto.

The Last Will and Testament demonstra que a identidade do Opeth não depende de permanecer exclusivamente no death metal ou no rock progressivo. A banda encontra força justamente na tensão entre essas duas vertentes, explorando a brutalidade sem abrir mão da delicadeza e da complexidade. Para quem sentia falta dos vocais guturais de Åkerfeldt, o álbum representa um reencontro significativo; para os admiradores da fase mais progressiva, oferece arranjos elaborados e uma narrativa que recompensa a audição integral.

Opeth em São Paulo e Curitiba

No show do Espaço Unimed, o público poderá conferir a atual formação do Opeth. A banda é composta por Mikael Åkerfeldt nos vocais e guitarra, Fredrik Åkesson na guitarra, Martin Mendez no baixo, Joakim Svalberg nos teclados e Waltteri Väyrynen na bateria.

Väyrynen, inclusive, estreou em estúdio com o Opeth justamente em The Last Will & Testament. Dessa forma, a apresentação em São Paulo reúne a atual formação da banda em uma turnê que explora uma das fases mais conceituais e pesadas de sua carreira.

O Opeth se apresenta no Espaço Unimed, em São Paulo, no dia 6 de novembro. Na véspera, em 5 de novembro, a banda toca na Ópera de Arame, em Curitiba. Os ingressos para a apresentação em São Paulo estão disponíveis exclusivamente pela Eventim.

Serviço | Opeth

Curitiba

Data: 5 de novembro (quinta-feira)

Local: Ópera de Arame

Cidade: Curitiba – PR

Ingressos:https://www.bilheteriadigital.com/opeth-curitiba-05-de-novembro

São Paulo

Data: 6 de novembro (sexta-feira)

Local: Espaço Unimed

Cidade: São Paulo – SP

Ingressos: https://www.eventim.com.br/en/artist/opeth/

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