Em clima de celebração, o Angra marcou o início de seu hiato mostrando o que sabe fazer de melhor: tocar o público com sua música.

Na noite do dia 3 de agosto, o Tokio Marine Hall, em São Paulo, foi palco de uma celebração intensa e emotiva: o último show da turnê comemorativa de 20 anos do álbum Temple of Shadows, do Angra. A apresentação também marcou o início de um hiato anunciado pela banda, que encerra um ciclo importante de sua trajetória. Com casa cheia, repertório afinado e sem muito espetáculo visual, o grupo provou por que é um dos grandes nomes da história do heavy metal brasileiro.

A celebração de um clássico do metal nacional

Prestes a entrar em hiato, o Angra encerrou um ciclo com a turnê comemorativa de 20 anos do álbum Temple of Shadows, um dos discos mais marcantes da banda. Lançado em 2004, o álbum apresenta um conceito denso sobre a jornada do personagem “The Shadow Hunter”, um cavaleiro convocado para as Cruzadas.

O disco é conhecido por sua ampla orquestração, arranjos complexos e participações especiais de grandes nomes do metal mundial e da música brasileira. É um dos álbuns mais queridos pelos fãs e, segundo o guitarrista Rafael Bittencourt, “um dos mais difíceis de se executar ao vivo”.

Com esse pano de fundo, já era de se esperar que os shows da “Temple of Shadows 20th Anniversary Tour – Interlude: Final Lap” fossem ansiosamente aguardados. Mas a promessa, de acordo com o baixista Felipe Andreoli, era mais simples: “celebrar um legado extremamente importante para a banda e para o público, e a entrega total no palco”.

Foto: Osvaldo Cesar

A experiência do Temple of Shadows em 2004 e ao vivo

Para quem viveu a época do lançamento de Temple of Shadows, ainda no auge da mídia física, lembra que a experiência sonora ia além da audição: envolvia folhear o encarte, decifrar trechos em latim e mergulhar na jornada do “The Shadow Hunter”. Ao vivo, essa imersão veio nos detalhes: os riffs impactantes de “Spread Your Fire”, as nuances do baixo e da bateria em “Sprouts of Time”, o diálogo bilíngue de “Late Redemption” e o contraste entre leveza e peso em “Morning Star”. Tudo muito bem encaixado, sem que qualquer detalhe sonoro se perdesse.

Afinal, o Angra já é reconhecido por sua qualidade técnica e potência ao vivo, é daqueles shows muito bem regulados, que permitem a audição de cada nota, de cada instrumento com perfeição. E, no caso do Temple of Shadows, isso era ainda mais crucial, pois certamente os fãs queriam sentir ao vivo a sensação impactante que o álbum causou quando foi lançado lá em 2004.

Foto: Osvaldo Cesar

Assim, o que se viu na apresentação no Tokio Marine Hall foi fiel ao prometido e do jeito habitual da banda. As projeções nos telões trouxeram as imagens de costume, a interação do Angra com o público foi pontual, e a música assumiu o protagonismo absoluto.

Se houve alguma lacuna, foi na ausência de participações especiais. O álbum original contou com vozes como Kai Hansen (Helloween, Gamma Ray) e Hansi Kürsch (Blind Guardian), especialmente notáveis em faixas como “Temple of Hate” e “Winds of Destination”. No entanto, Vanessa Moreno — que já havia participado do show de lançamento do álbum Cycles of Pain — marcou presença novamente, emocionando no dueto com Fábio Lione em “No Pain for the Dead”.

O hiato e o legado do Angra

Como um dos maiores representantes do chamado Brazilian heavy metal, o Angra levou os ritmos nacionais para o mundo, e de volta para o Brasil. Isso foi lembrado pelo vocalista Fábio Lione ao introduzir “Sprouts of Time” com o comentário: “Vamos agora tocar uma música brasileira”. A canção, que traz elementos da música nordestina, é também uma reflexão sobre a importância de aprender com o passado para construir o futuro, algo que ecoa fortemente com a trajetória da banda.

Foto: Osvaldo Cesar

Na ativa há 34 anos, o Angra passou por três gerações marcadas por rompimentos, que muitas vezes alteraram a linearidade de sua sonoridade. Ainda assim, a cada nova fase, um “rebirth” acontecia, mantendo firme o elo com o peso do metal e a identidade brasileira.

Durante o show, Rafael Bittencourt — fundador e único membro remanescente da formação original — comentou:

“Nós viemos mostrar a força da nossa cultura e a nossa capacidade. E é muito disso que a gente fala”, disse, ao introduzir “The Shadow Hunter”, “uma história sobre um caçador de sonhos”.

Falando sobre o hiato, Bittencourt revelou o cansaço acumulado ao longo dos anos e o desejo de preservar o bom momento da banda:

“Essa é a terceira geração da banda. São 34 anos, muitos desafios e conquistas. E esse show que vocês estão vendo hoje aqui, esses caras, são o maior orgulho que eu tenho. Desde o começo, nunca foi tão agradável estar na banda, nunca foi tão gostoso trabalhar e passar tempo juntos. E isso é muito difícil de construir. Eu quero preservar isso, porque é muito especial”.

Foto: Osvaldo Cesar

O público como parte da história

A plateia retribuiu com empolgação e muito headbanging, inclusive foi difícil escapar da “surra de cabelo”. Desde as bandas de abertura — os argentinos do Azeroth e o Viper — o público se mostrou entregue e a conexão, especialmente com o Viper, foi evidente.

Em conversa com um dos fãs presentes, Felipe Temponi, ele comentou sobre a emoção de viver o último show do Angra e a importância daquele momento tanto para o público quanto para a história do metal brasileiro:

“Eu estive no último show do Andre Matos e, pra mim, está sendo muito impactante ver essa galera deixar um legado. Como o próprio Ozzy mencionou, a questão agora é não deixar a tristeza tomar conta, mas comemorar o legado deles. É muito emocionante poder ver algo construído pelo Viper e pelo André Matos e ter vivido na mesma era que eles. E isso foi o que me convenceu a vir ao show: o combo Viper e Angra, pois são bandas que me marcaram muito e me marcam até hoje. Inclusive, eu não fui no show do Edu Falaschi (comemorando os 20 anos do Temple of Shadows), mas quando vi os vídeos, eu pensei: ‘por que eu não estou lá?’”

Ainda falando sobre legado, o Angra aproveitou para homenagear um dos maiores nomes do heavy metal mundial, que nos deixou recentemente, o Ozzy Osbourne, tocando “No More Tears”. E, apesar de ser o show comemorativo do Temple of Shadows, a banda não deixou de lado os sucessos que marcaram sua história. Nisso, o setlist também contou com “Nothing to Say”,  “Millennium Sun”, “Rebirth”, “Angels cry” e “Nova Era”, além de “Tide of Changes” do último álbum.

Foto: Osvaldo Cesar

A importância do Viper na celebração

O Viper, banda que revelou Andre Matos, foi uma escolha simbólica e poderosa para dividir o palco com o Angra. Com um show sem baladas e recheado de clássicos, o grupo comemorou seus 40 anos de carreira e gravou um disco ao vivo na ocasião.

Ao final, o Viper prestou homenagem a Andre Matos e ao baixista Pit Passarel, ambos falecidos, e contou com a participação de Rafael Bittencourt em uma das músicas. Mais um símbolo da conexão entre as histórias das duas bandas.

Foto: Osvaldo Cesar

Pausa com gosto de missão cumprida

O hiato anunciado não soa como despedida definitiva, mas sim como um intervalo necessário após uma jornada intensa. A turnê de 20 anos de Temple of Shadows serviu não apenas para celebrar o legado do Angra, mas também para reafirmar seu impacto no cenário musical nacional e internacional. O clima foi de celebração, mas do jeito do Angra, sem muita pirotecnia, sem muito espetáculo visual, só a banda em sua essência, fazendo o que sabe de melhor: tocar o público com sua música.

Veja mais fotos do show do Angra e Viper pelo olhar do fotógrafo Osvaldo Cesar.

Setlist Angra  “Temple of Shadows 20th Anniversary Tour – Interlude: Final Lap” (03/08/2025 – São Paulo)
  • Intro
  • Nothing to Say
  • Millennium Sun
  • Tide of Changes – Part I
  • Tide of Changes – Part II

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Temple of Shadows

  • Deus le volt!
  • Spread Your Fire
  • Angels and Demons
  • Waiting Silence
  • Wishing Well
  • The Temple of Hate
  • The Shadow Hunter
  • No Pain for the Dead (com Vanessa Moreno)
  • Winds of Destination
  • (seguido de Queen – “Bohemian Rhapsody” acapella por Fabio Lione)
  • Sprouts of Time
  • Morning Star
  • Late Redemption

_____

  • Rebirth (com Vanessa Moreno)
  • Angels Cry
  • No More Tears (cover Ozzy Osbourne)

Bis:

  • Unfinished Allegro
  • Carry On (sem ponte e refrão)
  • Nova Era
  • Gate XIII

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