Austen Starr transforma conflitos internos, personas femininas e sapateado em um álbum que funde vulnerabilidade, teatralidade e múltiplas camadas de hard rock, pop e emo.

A cantora americana Austen Starr é o tipo de artista que nasce entre mundos: criada por músicos, moldada pela dança e movida por uma inquietação emocional que transborda em letras, personagens e performances. Filha da geração Britney Spears e forjada no imaginário pop dos anos 2000, ela construiu seu universo artístico em torno de um paradoxo constante: o desejo de se esconder e de ser vista na mesma intensidade.

Seu álbum de estreia, I Am The Enemy — previsto para 13 de fevereiro de 2026, pela gravadora Frontiers Music Srl —  traduz esse embate em uma obra que combina mitologia, simbolismos psicológicos, autocrítica bem-humorada e um mergulho profundo em questões de identidade. Entre referências que vão de Medusa a Alice no País das Maravilhas, Austen cria um mosaico de personas que refletem diferentes versões de si, sempre em conflito, sempre em movimento.

O resultado é uma narrativa sonora que passeia do hard rock ao pop, incorporando nuances emo e texturas dramáticas que revelam o quanto sua formação como dançarina ainda guia a construção de ritmos, melodias e atmosferas. Mais do que um primeiro álbum, I Am The Enemy parece ser a formalização de um combate interno que Austen, enfim, decidiu enfrentar de frente e compartilhar com o público.

Foto: Anthony Grassetti

Autossabotagem e impulso criativo

A trajetória de Austen é marcada por uma relação tensa com a própria visibilidade. Mesmo atraída pelo palco desde criança, ela passou anos se escondendo em bastidores, escritórios e até closets para evitar ser reconhecida. Esse comportamento cria a linha mestra do álbum: o embate entre a autossabotagem e o impulso criativo, entre a voz que ela sempre temeu e a história que precisava ser contada apenas por ela mesma e por mais ninguém.

JS: No seu website, você fala com humor — e até com certa dureza — sobre sua “hipocrisia”, especialmente ao lançar um álbum mesmo odiando sua voz ou evitando palcos. Em que momento você percebeu que esse conflito interno não era um obstáculo, mas parte da sua identidade artística?

AUSTEN STARR: Eu diria que ainda é um obstáculo, mas um com o qual estou começando a me divertir, talvez por despeito. Passei tanto tempo me odiando por tudo e por nada, a ponto de não conseguir realizar muita coisa na vida. Eventualmente, chegou a hora de colaborar com “O Inimigo” [referência ao título do álbum ‘I Am The Enemy’], por assim dizer, e não me deixar mais atrapalhar meu próprio caminho.

JS: Você disse que se escondia do público nos acampamentos musicais. O que fez você decidir que agora era hora de ser vista?

AUSTEN STARR: Acho que simplesmente me irritei por nunca ser ouvida; até o timbre da minha voz se mistura com o ruído de fundo. Eu poderia estar bem ao lado de alguém e falar algo que essa pessoa não me ouviria de jeito nenhum. Dito isso, ainda tenho dificuldades com a ideia de “ser vista” – sinto um certo receio ao ver meu nome em sites ou comentários em meus vídeos. Sempre presumo que serão negativos, haha. Mesmo assim, agradeço o feedback!

Ritmo, sapateado e narrativa

Embora tenha começado na música mais tarde, Austen traz uma bagagem corpórea rara no pop rock. Sua formação em sapateado aparece nas cadências, nos cortes rítmicos e até nas escolhas melódicas. Essa herança física faz com que suas letras tenham textura, movimento e imagens quase coreografadas, ampliando o senso teatral de suas composições.

JS: Você cresceu como dançarina e só mais tarde abraçou o canto. Como o ritmo e o corpo influenciam as letras e melodias que você compõe hoje? Como se deu sua trajetória na música?

AUSTEN STARR: Adorei essa pergunta! Acho que crescer aprendendo a contar histórias através do movimento me ajudou a escrever de forma mais descritiva e com imagens e texturas melhores para as letras. Meu senso de ritmo ao escrever letras provavelmente é influenciado pela dança sapateada, especificamente; pode-se dizer que o sapato de sapateado foi, na verdade, meu primeiro instrumento.

A música sempre esteve muito presente na minha vida, já que meus pais têm formação musical. Sempre adorei estar perto de música ao vivo e sempre adorei estar no palco. Sintetizar os dois é o objetivo!

Medusa, Alice e outras personas

A presença de figuras mitológicas e personagens ficcionais no álbum evidencia o quanto Austen utiliza máscaras para revelar — e não esconder — sua experiência pessoal. “Medusa”, escrita na adolescência, desponta como ponto de partida da estética do disco: uma mistura de autoconfiança performada, vulnerabilidade implícita e fantasia emocional. Ao revisitar essa faixa, ela revisita também uma versão de si mesma que simulava poder para enfrentar fragilidades que só agora consegue nomear.

JS: Você mencionou que a música Medusa — escrita ainda na adolescência — se tornou o ponto de partida para o álbum. Como foi revisitar essa faixa antiga para integrá-la em “I Am The Enemy”?

AUSTEN STARR: “Medusa” foi a demo mais profissionalmente executada que eu tinha à disposição quando tive a oportunidade de mostrar um exemplo de algo que eu havia escrito. Ela definiu o tom do álbum como um olhar para várias das minhas personas através de uma introspecção mantida à distância, escondida por trás de personagens.

Foto: Anthony Grassetti

JS: “Medusa” nasceu de uma Austen jovem que imitava confiança. Hoje, adulta, o que você acha que aquela versão sua queria dizer e que talvez você só agora tenha entendido?

AUSTEN STARR: Essa versão de mim mesma estava emulando a vibe de “Dark Horse” da Katy Perry e a indiferente devoradora de homens de “Ex’s & Oh’s” da Elle King, enquanto explorava uma visão estereotipada de mulheres que curtem a conquista, mas que, assim que pegam o cara, dizem: “próximo!”. Eu achava isso muito legal e empoderador. Agora eu entendo de forma diferente: eu estava imaginando como seria não ter problemas de apego, haha.

JS: As personas de Alice no País das Maravilhas, Medusa e até uma representação de persona em si (efígie) são mencionadas no seu trabalho. Há mais outras personalidades escondidas? Como elas representam a aura do álbum?

AUSTEN STARR: Acho que cada música é uma faceta da minha personalidade que estou tentando trabalhar ou com a qual estou tentando me reconciliar. Compor, para mim, sempre foi um processo. As personalidades – Alice, Medusa, os personagens de “I Am The Enemy”, talvez uma mulher sendo queimada na fogueira, uma criança com a consciência pesada, um amante melancólico… – todas representam uma confusão e uma luta que deixam mais perguntas do que respostas. Essencialmente: a vida. E eu sou alguém que realmente odeia ambiguidade; não suporto incerteza. 

De certa forma, fiz o álbum para expor minhas ansiedades, buscando uma resolução. Só espero que as pessoas se identifiquem!

JS: Há alguma música ainda não lançada como single que você quer que as pessoas prestem mais atenção quando o álbum sair?

AUSTEN STARR: “Get Out Alive” quase foi um single, até ser substituída por “Remain Unseen” como faixa 1. “Get Out Alive” permite uma boa dose de interpretação. Para mim, trata-se de aceitar certos aspectos de si mesmo que o tornam imperfeito – particularmente aqueles que outras pessoas já notaram – e aprender a acolher, ou pelo menos tolerar, esses aspectos, porque é a única maneira de seguir em frente. No meu caso, trata-se de aceitar problemas de saúde mental como ansiedade e autopunição desadaptativa.

Hard rock, pop e emo

O disco transita entre referências sem buscar um rótulo definitivo. Austen se apoia em elementos do hard rock, no pop e no emo para construir sua narrativa. Essa heterogeneidade não nasce de um cálculo, mas de um instinto artístico ainda em construção e que ela abraça como parte de sua identidade. A mistura faz do álbum um campo aberto para diferentes leituras, do ouvinte casual ao fã de narrativas densas.

JS: Sua sonoridade traz uma mistura de influências, do hard rock (Get Out Alive, Remain Useen, Medusa) ao pop (I Am The Enemy e The Light) e até umas pinceladas emo (Until I See You Again). Você acredita que há um gênero específico para cada tema que você quer falar? Exemplo: música mais pop fala de vulnerabilidade, hard rock de superação…?

AUSTEN STARR: Preciso colocar meus óculos de “pensamento crítico e síntese” para essa, haha. Ótima pergunta! Gostei da sua interpretação. Acho que não tinha nenhum tema específico em mente por gênero, mas acredito que há um grau maior de simplicidade nas letras das músicas mais “pop”. Você não ouve falar de um “paradigma cataclísmico” em “All Alone”, por exemplo. Também acho que quanto mais “emo” a música parece, mais honesta a letra contém.

JS: Com tantas influências, você consegue se colocar em alguma caixinha? Dizer qual estilo você toca? E qual a sua música preferida do álbum?

AUSTEN STARR: Quando me perguntam que tipo de música eu faço, geralmente digo “rock” ou “pop-rock”, gêneros que englobam tantos subgêneros que não preciso pensar muito para definir exatamente onde me encaixo. Ainda estou tentando descobrir. Quanto à minha favorita, essas músicas têm uma variedade estilística tão grande que fica difícil escolher. “Remain Unseen” me conquistou de vez, e “Medusa” sempre terá um lugar especial no meu coração.

JS: No geral, qual a sensação você quer que as pessoas tenham ao ouvir seu trabalho?

AUSTEN STARR: Liricamente, busco levar os ouvintes a uma jornada de autoexploração até um certo desconforto – realmente a uma imersão profunda. Adoraria que minhas letras provocassem uma dose de introspecção no ouvinte, mesmo que isso signifique confrontar versões menos agradáveis ​​de si mesmo. Se alguém preferir não se atentar à letra e sim ao som, espero que encontre algo que o faça vibrar!

Álbum novo em e álbum novo de novo!

Com um novo single e videoclipe a caminho, Austen se prepara para uma fase decisiva. Entre sessões de estúdio conduzidas pelo próprio pai e os primeiros passos para montar uma banda de shows, ela já escreve material para um segundo álbum antes mesmo do lançamento do primeiro.

JS: Você pode adiantar qual será o próximo single lançado e ideias para o próximo videoclipe?

AUSTEN STARR: O próximo single tem um vídeo bem mais simples que “Medusa”, com cenas das sessões de gravação intercaladas — e meu pai foi meu engenheiro de som, então ele aparece em algumas cenas. Não sei se posso revelar o título, mas a música era meio “mágica”. Foi a primeira ideia nova que me apresentaram para o álbum. Joel Hoekstra escreveu o refrão, e eu tentei manter a letra dele, mas acabei escrevendo seis versões bem diferentes que eu detestei. No dia em que eu ia gravar, algo mudou, e eu reescrevi toda a letra (exceto os dois versos do Joel) durante os 22 minutos de trem até o estúdio.

JS: O álbum será lançado em fevereiro de 2026. O que podemos esperar de Austen Starr antes e depois desse lançamento?

AUSTEN STARR: Como mencionei, ainda tem mais um videoclipe a caminho para o álbum, e estou trabalhando para reunir alguns músicos para shows ao vivo, então isso deve acontecer depois do lançamento. Enquanto isso, comecei a escrever letras para trabalhos futuros! Meu primeiro álbum nem foi lançado ainda, e eu já estou praticamente compondo o segundo, haha. Acho que tenho muita coisa para processar…

I Am The Enemy chega em 2026

Se I Am The Enemy é a exposição dos conflitos internos que a acompanharam por anos, o período pós-lançamento promete ser a fase em que Austen finalmente testa essas narrativas diante do público, sem armários ou bastidores para se proteger.

Com 11 faixas, “I Am The Enemy” promete ser uma estreia poderosa e emocional, marcada por letras confessionais e arranjos densos. O álbum já está disponível para pré-venda no site da Frontiers Music Srl.

AUSTEN STARR – I Am The Enemy

Lançamento: 13 de fevereiro de 2026
Gravadora: Frontiers Music Srl
Faixas:

  1. Remain Unseen
  2. Medusa
  3. I Am The Enemy
  4. Read Your Mind
  5. Get Out Alive
  6. Effigy
  7. Running Out Of Time
  8. All Alone
  9. Not This Life
  10. The Light
  11. Until I See You Again

Formação:
Austen Starr – Vocais
Joel Hoekstra – Guitarras
Chris Collier – Baixo e bateria
Steve Ferlazzo – Teclados
Chloe Lowery – Backing vocals

AUSTEN STARR ONLINE:

Instagram | Website

Crédito das fotos: Anthony Grassetti

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