Após lançar seu novo álbum, Atravessada, Leffs comenta a pluralidade da nova MPB, os desafios da comunidade trans na música atual. Além de política, luto, inspiração e muito mais.
A música popular brasileira contemporânea guarda muitas preciosidades. E, dentro dessa nova safra, está a cantora, compositora e produtora paranaense Leffs. Natural de Maringá, a artista lança seu primeiro álbum de estúdio, Atravessada, reunindo dez faixas que passeiam entre a MPB, o pop alternativo e a música urbana. Em meio a essa mistura de gêneros, o disco encarna narrativas de identidade, desejo e poder sob a perspectiva de uma mulher travesti que “sonha com novos mundos”.
Em um papo inspirador com O Jardim Sonoro, Leffs falou sobre o processo criativo do disco, as referências que vão de Chico Buarque ao pop dos anos 2000, luto, política e os desafios da cena independente e da comunidade trans na música atual. Confira:

Todas as texturas musicais de Leffs
OJS: O seu trabalho passeia por diferentes estilos, indo do pop alternativo a MPB, sempre bem atrelado com uma sonoridade contemporânea. Como esses diferentes estilos se conectam com as suas narrativas?
LEFFS: Minha formação musical foi permeada de muitas referências diversas da MPB. Costumava viajar com meus pais ouvindo Tim Maia, Elis Regina, Milton Nascimento, Caetano e Bethânia, Chico Buarque, Gal e por aí vai. Mas também fui impactada pelo que se desenvolvia no Pop nas rádios e na TV, como Sandy & Júnior, Kelly Key, Felipe Dylon, Pepê e Neném, Luka e Rouge.
Acho que essa junção de tantas texturas musicais fortaleceram em mim a noção de pluralidade na música feita no Brasil. Fazer música popular pra mim passa por deglutir todas essas referências (e mais um bocado de outras) e conectar com o público através da melodia e da letra, que é de fato meu grande foco no trabalho musical. Sinto que o que amarra esses diferentes estilos em meu trabalho é aquilo que canto e como canto.
OJS: Quando comecei a ouvir “Atravessada”, imaginei que iria ficar por ali naquela sonoridade tranquila, mas aí veio “Peligrosa” pra me fazer levantar da cadeira. E essa é uma música que tem a participação de Trava da Fronteira. Como você se sentiu com esse feat? Também fez você sair da sua zona de conforto? Conte sobre essa experiência.
LEFFS: Eu vinha de uma onda de lançamentos de single mais melancólicos, introspectivos antes de iniciar o trabalho de desenvolver o Atravessada. Então, uma das propostas nesse processo era estabelecer uma forma mais solar de compor, mais propositiva. Existia um desejo de fazer uma música pras pistas, pra dançar e pra conectar à minha maneira com o trabalho de outras artistas travestis que desenvolvem esta estética musical.

Só que eu sentia que existia um salto grande entre o que eu vinha fazendo e o que gostaria de fazer, por isso construí essa música como um feat, com o intuito de agregar linguagens sem me despersonificar artisticamente. Acredito ter sido uma decisão muito acertada tanto pelo resultado da música em si e também pela parceria com a Trava da Fronteira, que foi muito querida e atenciosa em todo o processo e ampliou os horizontes da faixa.
OJS: “Antúrio” é uma belíssima canção acústica, que é dedicada a sua avó. Qual o peso dessa homenagem em um álbum que fala tanto sobre vivências e afetividade?
LEFFS: Minhas avós são minhas grandes guias espirituais. Em 2024 perdi uma delas (a outra já havia falecido há muitos anos). Desde então, curiosamente tenho vivido muitas mudanças em minha vida pessoal e profissional e sinto realmente que as duas têm apontado as direções pra mim. Antúrio para além da homenagem a elas é um exercício do meu luto, que ultrapassa a tristeza e tem organizado em mim uma outra dinâmica com o tempo e a maturidade. Sinto que o álbum como um todo é fruto deste movimento e Antúrio é uma forma de tributo a essas mulheres que me formam e me guiam.
OJS: Há ainda mais um feat com Rúbia Divino, correto? Conta um pouco sobre a escolha das participações e o trabalho em conjunto.
LEFFS: O feat com a Rúbia Divino é um presente gigantesco para mim. Rúbia é uma artista que atuou ativamente na cena musical de Maringá por vários anos, é uma grande referência para a artista que sou hoje. Então a escolha para participação da Rúbia foi uma forma de honrar as artistas que vieram antes de mim a ajudaram a consolidar a música na minha região e apontaram caminhos possíveis nessa caminhada. Foi um prazer imenso dividir essa faixa com ela tanto pelo processo de troca enriquecedor durante a produção e também pelos lugares em que chegamos musicalmente.

De Chico Buarque a arte contemporânea
OJS: Dá pra captar umas referências a Chico Buarque quando fala de Geni e Teresa, estou enganada? Comente um pouco sobre o que e quem te inspira. O que na arte capta a sua atenção imediatamente?
LEFFS: Sim, o trecho de Teresa é uma citação a obra de Chico, que é uma referência muito grande de escrita pra mim. E no caso dessa canção em específico “Geni e o Zepelim” a música retrata a mulher travesti e a hipocrisia ao entorno dela, o que é a linha narrativa de Teresa, por isso a menção.
De modo geral, busco inspiração em lugares distintos. Adoro visitar exposições de arte contemporânea, trabalhar manualidades, como colagens ou cerâmica, por exemplo, leituras diversas. Enfim, sinto que isso tudo, mesmo que indiretamente, me coloca em um estado criativo e me permite fluir nas criações musicais mais livremente.

OJS: As letras cercam assuntos como “investigação entre gênero, desejo, poder e afetividade”. Podemos dizer que Atravessada é um exercício de auto descoberta?
LEFFS: Minha carreira musical nasce de uma demanda de endereçar minhas elaborações pessoais pra além de mim. Sinto que a música é uma ferramenta muito potente, se não a mais potente, de comunicação. Esse vínculo que a música provoca entre as pessoas me interessa muito.
Em Atravessada, esse ímpeto vem mais amadurecido, trabalhando menos pela ótica melancólica e mais na perspectiva de fabular um mundo em que eu e as pessoas de minha comunidade possam prosperar e ultrapassar as barreiras da cisnorma.
Então, acho que pra além da autodescoberta, que talvez tenha sido minha provocação inicial em meus primeiros anos de carreira, agora minha intenção é extrapolar a mim mesma e sonhar novos mundos possíveis pra nós.

Quem precisa conhecer Leffs
OJS: Eu sempre gosto de saber quem os artistas querem atingir com sua música. Quem você acha que precisa conhecer o trabalho da Leffs?
LEFFS: Eu escrevo especialmente para mulheres, pessoas trans e comunidade LBGTQIAPN+ no geral. Este é o público que me estimula a criar e com quem eu realmente desejo traçar cada vez mais conversas. Apesar disso, sinto também que em alguns momentos outros perfis chegam até meu trabalho e surpreendem ao relatar como foram atravessados pelas músicas. Tenho tentado, apesar de manter o foco no público que me alimenta, abrir mão do controle de como as pessoas absorvem as canções que canto por aí.
OJS: Se você puder resumir quem é Leffs para o público que não te conhece, o que você diria?
LEFFS: Leffs é uma artista que desenvolve música popular brasileira através de elementos de brasilidade, latinidade, travestilidade e contemporaneidade. Algo por aí.

As vozes trans no mercado e nas políticas culturais
OJS: “Atravessada é um projeto aprovado pela Secretaria de Estado da Cultura – Governo do Paraná”. Como você vê a importância de um suporte governamental para a criação desse projeto?
LEFFS: Atravessada, e vários outros feitos de minha carreira (lançamentos e shows) não teriam acontecido sem o suporte de editais públicos direta ou indiretamente. Especialmente nos interiores, este tipo de aporte financeiro é o principal motor da cena independente, já que as portas do mercado via de regra precisam de validações mais restritas neste contexto.
Penso que há muito a melhorar no sentido de democratização e acesso dos editais, mas ainda assim, esta é a melhor ferramenta que temos para que novos artistas possam desenvolver seus trabalhos de forma consistente.
OJS: Como você percebe o trabalho de artistas trans atualmente na música? Tem crescido em termos de identificação do público no geral ou ainda segue em nichos? E você? Onde se imagina chegar com sua arte?
LEFFS: Vejo que artistas trans, aos trancos e barrancos da lógica cisnormativa, têm alcançado espaços de visibilidade e representatividade. O que, em certa medida, gera efeitos positivos. Contudo, este acesso concedido pelo mercado tem feito muito pouco para garantir a autonomia destas/es artistas. A identificação do público tem crescido? Sim. Ainda somos alocadas em nichos? Também.
Penso que o caminho pode ser ampliar a pluralidade de vozes trans na música, nas artes como um todo. Mais gente desenvolvendo seus trabalhos com recursos e autonomia. Para mim, o que sonho com meu trabalho é desenvolver estrutura suficiente para continuar produzindo com autonomia e conectar com mais pessoas em diferentes cantos do Brasil.

Mais sobre Leffs
Natural de Maringá, Leffs vem se destacando na cena independente por uma obra que aproxima canção brasileira, pop e experimentação sonora. Em Atravessada, a cantora consolida esse caminho ao reunir referências diversas em um repertório que valoriza a escrita autoral e a construção de atmosferas sensíveis, reafirmando seu espaço entre os novos nomes da música brasileira contemporânea.
Leffs online
Contato e contratações: leffs.producao@gmail.com
Fotos: Isa Angioletto e Augusto Perego




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