Em Marakatus, o Psychotic Apes constrói uma obra densa e rítmica, unindo o peso do rock ao maracatu com originalidade e longe de clichês.
Conhecidos por sua mistura de rock, metal e música nordestina, a banda Psychotic Apes, de Natal-RN, traz Marakatus, seu novo álbum lançado em maio de 2025. O trabalho foca no peso dos anos 90, indo do grunge ao hard rock, e em elementos percussivos do maracatu de baque virado. A mistura, ao contrário do que se possa imaginar, passa longe do caricato e se encaixa organicamente na sonoridade da banda.
Além do eixo principal — rock e maracatu — o álbum passeia, ainda, por um pouco de experimentalismo e psicodelia em arranjos que quebram a expectativa do ouvinte. Ele inclui também faixas em homenagem ao “manguebeat”, instrumentais e uma lírica focada em temas atuais sobre sociedade e psique. Marakatus, lançado pelo selo MS Metal Records, é sombrio, pesado e, ao mesmo tempo, cheio de ritmo e poder ancestral.
A relação com a música nordestina e o maracatu
O título do álbum já entrega parte do conceito. Marakatus é uma referência direta ao maracatu, manifestação cultural de raízes afro-brasileiras surgida no Recife no século XIX. Segundo Ramiro Barros, guitarrista da banda, “o maracatu de baque virado serviu como espinha dorsal ao disco, influenciando as batidas e as atmosferas em praticamente todas as faixas”.
Essa conexão é explicitada em “Livre Iniciativa”, única faixa em português, que presta homenagem direta ao movimento manguebeat, com uma releitura pesada do clássico presente no álbum Samba Esquema Noise (1994) do Mundo Livre S/A. “Desde os nossos primórdios, essa fusão desenvolvida pelas bandas do ‘manguebeat’ influenciou demais o nosso som”, conta Ramiro. A versão da banda atualiza a proposta com guitarras mais agressivas, sem perder a alma original.
Outra faixa emblemática é “Ciranda”, uma instrumental psicodélica inspirada numa cantiga tradicional pernambucana. Nela, “a melodia é construída aos poucos pelas guitarras até revelar no final os versos conhecidos: ‘Ó cirandeiro / Cirandeiro, ó / A pedra do seu anel / Brilha mais do que o sol’”, explica Ramiro. Uma bela forma de homenagear a herança musical nordestina, sem cair na caricatura.
A capa reforça a identidade da banda
A capa do álbum também traduz essa proposta, com o icônico gorila da banda tocando uma alfaia em um manguezal, unindo simbolicamente o peso do metal com as raízes afro-nordestinas do maracatu.
“Marakatus consolida a nossa assinatura estética de fundir música pesada e ritmos brasileiros”.
Experimentalismo, rock, metal e raízes brasileiras
Embora o maracatu seja a espinha do projeto, o álbum se destaca pela maneira como transita entre metal alternativo, hard rock, psicodelia e texturas experimentais, tudo sob uma estética noventista. Ramiro aponta que “há uma inclinação muito mais forte ao metal e ao hard rock dessa vez. Claro que tudo sob um prisma alternativo e uma pegada que remete aos anos 90. Os elementos regionais estão presentes, sobretudo, nos ritmos das percussões, em quase todas as faixas do álbum”.
Faixas como “Boomers”, com sua crítica social vibrante e uso emblemático das percussões, e “Heirs of Chaos”, mais arrastada e densa, definem o tom inicial do álbum. A virada estética vem em “Dying Soul”, que apresenta uma estrutura fragmentada, múltipla e intensa, um reflexo da abordagem experimental do disco.
“Considero este álbum mais maduro que os precedentes. É como se os experimentos sonoros testados nos registros anteriores se harmonizassem e se equilibrassem melhor”, analisa Ramiro.
Faixas como “Get Out” e “You Better Try” reforçam esse espírito, unindo vocais com efeitos, guitarras que flertam com o metal e hard rock e percussões que se insinuam entre os riffs. “Be Welcome… to Leave” e “The Road” também se destacam por dialogar com o rock alternativo clássico e pelo uso de percussões como ponte para mudanças estruturais inesperadas.
Os desafios da produção e o novo vocalista
A produção do álbum foi um processo longo e exigente. De acordo com Ramiro, Marakatus levou cerca de dois anos para ser concluído, com participação mais ativa de todos os integrantes. “Todos contribuíram com ideias para os arranjos, o que tornou o processo mais colaborativo e desafiador.”
O disco marca, ainda, a estreia do vocalista Pablo Rugal, o quarto a assumir os vocais da banda. “Penamos um pouco até encontrar a pessoa certa para o posto. Pablo tem uma extensão vocal incrível, interpretação inspirada e presença de palco forte. Ele trouxe uma nova energia ao grupo”, diz Ramiro.
Com a assinatura da MS Metal Records, Marakatus representa uma evolução na trajetória do Psychotic Apes. “Sinto que agora conseguimos formar um todo orgânico, algo que faltava nos discos precedentes”, afirma Ramiro.
Anteriormente, a banda lançou o EP Reinventing the Shadow, pela Electric Funeral, (2023) e, em seguida, receberam propostas de alguns selos. No entanto, segundo o guitarrista, a MS Metal Records foi o que mais chamou a atenção do grupo, e que os fez fechar a parceria.
Participações deram a cara de Marakatus
O álbum conta com colaborações importantes, como a do percussionista Alessandro Risada, que gravou as alfaias e outros instrumentos típicos do maracatu. Participam, também, o vocalista Carlos Sun (ex-Dyluvian, Sleeping Sun), na faixa Dying Soul; o guitarrista Gustavo “Manteiga” Aragão (ex-Dyluvian, Left Arm Jack), na faixa In the Line of Fire; e Petrus Carvalho (ex-Sauhtet, ex-The Wink), nos baixos, em Shattered to the Bone.
Conclusão
Com Marakatus, o Psychotic Apes mostra maturidade ao equilibrar suas raízes sonoras com experimentações autênticas, firmando-se como uma das propostas mais criativas do rock brasileiro. Eles reforçam sua essência de ser uma banda pesada, com um olhar nos anos 90 e tudo o que essa década traz — o grunge, o alternativo, o metal e o hard rock — além de se conectar de forma orgânica e não óbvia com a música nordestina.
Psychotic Apes é
Pablo Rugal
Ramiro Barros
Tadeu Marinho
Patrick Sena
Rafael Franzon





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