The Game of Us, do Ready to be Hated, é um reflexo da trajetória de músicos experientes que se recusam a deixar a música estagnar.
Em seu disco de estreia, The Game of Us, a banda brasileira Ready To Be Hated apresenta um trabalho conceitual e visceral que ultrapassa o formato tradicional de álbum. Unindo música, narrativa e design, o projeto se materializa também como um tabuleiro de jogo, criando uma metáfora para os desafios da vida e da trajetória artística. Com nove faixas, o disco propõe uma jornada emocional intensa, marcada por peso, criatividade e letras confessionais, em que o ouvinte é convidado a jogar junto.
O álbum traz um encarte físico que vira um tabuleiro de jogo com 43 casas que representam fases da jornada pessoal dos integrantes. A ideia é propor uma metáfora potente sobre a vida como uma partida imprevisível, marcada por dores, lutas e escolhas. A capa, assinada por André Honorato, reforça essa ideia ao mostrar uma família concentrada no jogo enquanto o mundo ao redor se esfacela.
Segundo os músicos, “o jogo diverte, mas a luta permanece invisível”. Assim, o disco foca nessa dualidade: o brilho do espetáculo e a sombra da dor, ambos imprescindíveis à existência da arte. E é exatamente essa tensão e dualidade que encontramos ao longo das nove faixas do disco.

melódico, moderno, erudito e outros temperos
O álbum se inicia com “The One”, uma introdução que posiciona o ouvinte diante da primeira casa do tabuleiro, sendo, simbolicamente, o início da jornada pessoal de cada integrante da banda. A faixa carrega uma carga introspectiva que funciona como um convite para mergulhar no universo emocional do grupo.
Sonoramente falando, ela traz um pouquinho das referências que farão parte do álbum, tanto nos diferentes estilos de rock e metal, quanto na característica de cada músico. O baixo é super marcante, o vocal é límpido, a bateria é enérgica e a guitarra segue a versatilidade do som. Um passeio pelo metal melódico e as sonoridades mais modernas e emocionantes.
Logo em seguida, “Something to Say” acende o tom de protesto. Lançada previamente como single, a música expressa com clareza a urgência de se posicionar em um mundo que frequentemente silencia ou distorce vozes autênticas. É um dos momentos mais intensos do disco, com letra incisiva e instrumental pesado.
Aliás, em se tratando de instrumental, essa é a música que vai fazer brilhar os olhinhos dos fãs de Angra e Shaman, já que incorpora elementos da música regional brasileira e linhas clássicas do power metal. E tudo isso com um vocal cheio de emoção, riff arrebatador e bateria super cadenciada. Além de um solo que mistura um som acústico encantador com aquela guitarra em tom de redenção.
Na sequência, vem “Forgettable”, que aprofunda o mergulho emocional ao retratar a sensação de ser invisível e irrelevante. É uma faixa de atmosfera densa que expõe fragilidades sem perder a força. É preciso destacar o baixo monstruoso de Luis Mariutti dessa canção e a sonoridade groovada que casa perfeitamente com a escolha vocal, que sai um pouco do padrão mais agudo que estamos acostumados a ouvir do Thiago Bianchi. Ela ousa, ainda, trazendo elementos modernos (conferindo mais brilho à música), que se misturam a um inesperado solo setentista. Uma das melhores surpresas do álbum.
Depois dessa porrada, vem “The Old Becomes the New” que promove uma virada simbólica ao resgatar experiências passadas e convertê-las em potência criativa. A canção marca um momento de reconstrução, como quem se levanta do chão para recomeçar.
Instrumentalmente, ela é uma balada super delicada, com violões dedilhados e cristalinos, que ajudam a carregar na emoção. É também mais um clássico do metal melódico do álbum, cheia de sentimento e perfeita para aquele momento do show em que o público liga a lanterna do celular e canta junto.
Já “For the Truth!”, uma das faixas mais intensas do álbum, surpreende ao incorporar elementos eruditos com o violoncelo de Luis Fernando Venturelli em uma belíssima referência às Bachianas Brasileiras No. 5, do compositor Heitor Villa-Lobos. Essa escolha cria um contraste entre lirismo e agressividade sonora que resume bem o espírito do disco.
Isso porque, após a introdução clássica, a música traz toda a força do prog/power metal em seus elementos essenciais. E, assim, “For the Truth” segue passeando entre o sutil e o agressivo com maestria. Pare para ouvir essa música com calma, especialmente o solo, ela vai surpreender os seus ouvidos.
- Leia também: Ready To Be Hated lança álbum “The Game of Us” e confirma participação no festival The Town
O centro gravitacional do trabalho é “The Game of Us”, faixa-título que costura todos os temas do álbum e reforça a proposta lúdica e conceitual do projeto. Aqui, a banda não apenas canta sobre o jogo, mas sim convida o ouvinte a participar dele, colocando-se como peça ativa dessa narrativa.
A sonoridade é ousada e moderna, incorporando vocais rasgados e guitarras com efeitos ruidosos, mas com um fundo de anos 90, que – de início – causam certa estranheza pela mistura. Porém, não se prenda a isso, pois essa música traz uma infinidade de referências que precisam ser muito bem digeridas. Mais uma vez, o grande destaque vai para o baixo veloz e expressivo e para toda a criatividade da faixa.
Na sequência, “Searching for Answers” se destaca como outro ponto alto. Com clima reflexivo e arranjos que dialogam com sonoridades dos anos 1980 e texturas modernas, a música explora a busca por sentido em meio ao caos da existência. A melodia vocal é uma das mais belas do álbum e o conjunto de referências sonoras faz o ouvinte adentrar completamente no sentimento da música.
O penúltimo ato vem com “Us Against Them”, um hino de resistência coletiva que projeta a identidade do grupo como algo além da música. Podemos dizer que essa faixa é praticamente um manifesto artístico de união frente à adversidade. As vozes de cada integrante são muito bem representadas pelas diferentes linhas de vocal (e backing vocal), que parecem expressar uma conversa entre si.
Fique atento à quebra que a música ganha quando entra o solo, pois isso deixa a faixa ainda mais surpreendente. É aquele tipo de música que surpreende a cada minuto por ganhar diferentes cores a cada trecho, indo do intenso ao etéreo.
Encerrando o álbum, “The Great Gift of Life” assume tom contemplativo ao trazer elementos da música andina, como charangos, quenas e zampoñas. Ela é uma colaboração com Ademar Farinha, que amplia o horizonte sonoro do disco e reafirma o valor da vida como dádiva, mesmo em meio à dor.
A sonoridade inicial é rica e cheia de leveza e frescor. Um trecho que precede um som de peso que não é menos luminoso. A faixa consegue ser enérgica e delicada, combinando emoção e esperança ao mesmo tempo.
Criatividade e coragem para jogar
Produzido por Thiago Bianchi, com coprodução de Hugo Mariutti, mixado no Estúdio Fusão VM&T com baterias captadas no Dharma Studios, The Game of Us entrega peso e melodia na medida certa. O disco transita entre o heavy metal e o power metal, incorporando camadas modernas e arranjos ricos que incluem desde percussões orgânicas até samples e teclados, sem nunca soar disperso. Cada faixa é pensada como parte de um todo coeso, em que a narrativa é tão importante quanto a música.
Vale destaque para a criatividade de um trabalho rico e cheio de referências sonoras, que já era prometido pelos integrantes da banda. Nisso, “Game of us” consegue ser ousado, moderno e ao mesmo tempo clássico (até literalmente, quando inclui o maestro Heitor Villa-Lobos). É um reflexo da trajetória de músicos experientes, que têm muito a compartilhar e se recusam a deixar a música estagnar na repetição. Mesmo que isso, inevitavelmente, atraia alguns comentários de ódio, como o próprio nome da banda já antecipa.
Mais do que um álbum, The Game of Us é um convite para refletir sobre a própria caminhada. É uma declaração de intenções, que transforma dor em arte, luto em voz e jogo em metáfora. Agora, com o álbum completo, a banda pode, enfim, mostrar que a resistência também se faz com riffs, letras sinceras e coragem para jogar.

Ready to be Hated online
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