Nesta entrevista, o vocalista do Rootbrain, Jules Näveri, revela os segredos criativos do EP Mothertomb, que reinventa o som dos anos 90.
A banda finlandesa Rootbrain faz um som único que mistura grunge, metal alternativo e doom em melodias agressivas e tocantes. Eles ganham destaque pela criatividade em reimaginar a sonoridade dos anos 90, tendo, inclusive, lançado um cover pesado e melancólico para a música #1 Crush do Garbage.
Nesta entrevista para O Jardim Sonoro, o vocalista Jules Näveri nos fala sobre os desafios de ter uma banda intercontinental, sobre o EP Mothertomb, lançado pela Corpsepaint Records, além da relação com o Brasil e das referências sonoras, que passam por Alice in Chains, Soundgarden, Paradise Lost e Sepultura.
JS: Vocês já têm uma história antes da fase atual, certo? Na época da música “Lion tamer” e “Bullethead”, o som tinha ares mais de doom, apesar de ainda encontrarmos todas as características do grunge e alternativo ali. O que mudou de lá pra cá?
Jules Näveri: Quando a banda estava gravando o primeiro álbum ‘Breakwater’, a banda ainda funcionava como um trio, sem mim e Santura. Essas músicas foram arranjadas mais focadas nos instrumentos do que pensando no que fazer com os vocais. Eu intervi quando prometi fazer uma sessão vocal demo para os caras terem uma ideia de que tipo de vocais eles poderiam fazer nas faixas de estúdio já gravadas.
Durante essas sessões, eu me tornei um membro da banda porque senti que o material era muito especial e não queria que mais ninguém regravasse os vocais novamente. Mas para ser sincero, no primeiro álbum eu poderia ter tido um pouco mais de espaço para os arranjos vocais, mas as músicas estavam todas gravadas e não podíamos mexer muito nas gravações.
Mesmo assim, estou muito satisfeito com os arranjos vocais de Breakwater, porque eles vieram da inspiração de algumas das minhas bandas favoritas de metal e grunge dos anos 90. Em ‘Mothertomb’, já começamos a fazer a pré-produção com os cinco integrantes, sabendo que tipo de vocais estamos fazendo e também nos certificando de que há espaço suficiente para os vocais.
Muitas melodias de guitarra surgiram depois que tivemos as melodias vocais principais prontas para que pudéssemos encaixá-las de forma um pouco mais coerente. Todo o ponto de partida do EP foi mais fácil porque a banda agora está completa e sabemos que tipo de pontos fortes temos em nossa caixa de ferramentas.
JS: Como surgiu a ideia do cover de #1 Crush? Vocês imaginavam que teria toda a repercussão que teve? Comente um pouco sobre a ideia do videoclipe.
Jules Näveri: Nosso chefe e líder da banda, Thomas, é um grande fã do Garbage. Eu também gosto da banda, mas só conhecia os hits e não conhecia essa música até que Thomas nos apresentou essa ideia. Então, descobri que a música estava num filme de sucesso dos anos 90: “Romeo and Juliet”. Eu instantaneamente gostei da música e soube exatamente onde Thomas queria levá-la.
A música é liricamente muito perturbadora e tem uma forte vibração de perseguidor. Além disso, o trabalho vocal de Shirley Manson é impressionante. Queríamos maximizar as vibrações do perseguidor e, já mudando o sexo do narrador, encontramos alguns novos níveis de sujeira para causar um impacto diferente.
Também aceleramos a música para torná-la mais metal e grunge. Nossa ideia era trazer essa perturbação adiante no videoclipe da música, basicamente retratando um perseguidor que, de alguma forma, tem acesso à vida dos membros da banda. O vídeo é DIY ao máximo e ficou exatamente como queríamos: low-fi, atrevido e perturbador.
Estamos absolutamente muito felizes com o resultado e os comentários que recebemos sobre a música foram positivos. Espero que a banda (Garbage) esbarre na nossa versão da música algum dia e dê uma risadinha!
JS: Em músicas como “Mothertomb” e “Unawares”, vocês vão da sonoridade mais melódica até a mais sombria, mas sempre com um ar melancólico. Como vocês definem o clima das músicas? A melodia vem primeiro e molda as letras ou é o contrário?
Jules Näveri: No primeiro álbum, todas as letras são escritas por Thomas, porque ele tinha muitas coisas no peito que precisavam ser colocadas para fora de alguma forma. Já no EP nós compartilhamos as responsabilidades das letras e colaboramos uns com os outros em um nível diferente.
Eu sempre anoto ideias para letras e continuo trabalhando com o melhor material que tenho e geralmente acabam sendo letras de músicas. Mas, muitas vezes, me inspiro na música e começo a ter melodias e harmonias vocais ressoando na minha cabeça e esse também foi o caso de ‘Mothertomb’.
Eu sabia que a música era muito especial por causa de como ela aparecia nas sessões de cabine de Helle e Thomas e o tipo de estado de espírito que ela gerava. Eu logo me identifiquei com ela, senti que ela falava comigo e só tinha o título dela na cabeça, mas sabia sobre o que tinha de escrever. Não quero abrir as letras muito porque quero que os ouvintes possam interpretar as letras livremente.
Thomas escreveu a letra de ‘Unawares’ e colaboramos com Thomas e Santura para escrever ‘Svobomir’.
Todos nós amamos boas melodias e temos influência de bandas como Alice in Chains e Soundgarden. Mas também gostamos de mexer as águas com alguma melancolia nórdica fria que vem naturalmente de nós. É uma peça importante do DNA da Rootbrain.
JS: A sonoridade de vocês tem um pé nos anos 90. Quais as principais influências da banda? Como você definiria o Rootbrain pra quem não conhece o som de vocês?
Jules Näveri: Sim! Podemos dizer com orgulho que somos uma banda dos anos 90 operando nos anos 2020, haha! Para o bem do mercado musical que sempre quer rotular tudo, começamos a chamar nosso estilo de “black grunge de Seattle, Finland”, haha! Mas reiteramos que você pode chamá-lo do que quiser. Na verdade, temos uma lista das músicas no Spotify para apresentar nossas influências combinadas.
Quando entrei na banda e comecei a fazer os arranjos vocais de ‘Breakwater’, eu tinha quatro bandas na cabeça das quais senti que o álbum tinha um pouco de sua essência: Alice in Chains, The Entombed, Paradise Lost e Sepultura. Claro, todos nós nos aventuramos no metal há algumas décadas com nossas bandas antigas ou outras. Então, a maior parte da música vem de nossas viagens independentes como músicos, mas definitivamente há alguns ecos daqueles gigantes mencionados anteriormente.
Crescemos nas salas de ensaio tocando com todo o nosso coração por horas e horas de sessões. Isso nos deu a coragem e o estilo bruto de escrever música.
Queremos ser uma força contrária ao metal moderno que soa excessivamente enigmático e não natural, porque se tornou muito plástico e monótono.
JS: E o álbum novo? O que podemos esperar dele? Comente um pouco sobre como chegaram até a gravadora atual também.
Jules Näveri: Atualmente, estamos pré-produzindo nosso álbum número dois e estou ouvindo as demos enquanto conversamos! Preciso dizer que estamos muito animados e tenho certeza que poderemos gravar o álbum durante o verão europeu de 2025. O material está chegando muito bem e não nos faltam ideias. De longe, será um Rootbrain mais pesado e derrubaremos todos os portões com ele.
A colaboração com a Corpse Paint Records tem uma história que nasceu na turnê do Type O’ Negative & Celtic Frost nos Estados Unidos em 2010. Isso porque o nosso guitarrista Santura (que também toca com Triptykon e Celtic Frost) se encontrou com Drew Spaulding, o futuro chefe da Corpse Paint Records. Drew era o cara da merchandise do Type O’ Negative e eles se tornaram amigos do Santura.
Avançando para 2024, estávamos considerando a opção de lançar o EP ‘Mothertomb’ e começamos a conversar com Drew sobre isso. Ele adorou o material e nós gostamos da química com ele e decidimos trabalhar juntos. Estamos muito felizes com a contribuição da CPR e entusiasmados por ter uma oportunidade no mercado norte-americano.
JS: Como é ter uma banda intercontinental? Conte um pouco sobre como funcionam os ensaios, gravações e até mesmo os shows.
Jules Näveri: Sempre estive em bandas intercontinentais desde que me mudei para o Brasil em 2012, mas quando ainda morava na Finlândia, estava em uma banda bem ativa vinda da Alemanha. Então eu já estava acostumado a trabalhar com “música de longa distância”. Na verdade, não é tão diferente. A única grande diferença é que nós não conseguimos ensaiar juntos, então todos precisam ensaiar sozinhos.
Já quando se trata de compor, acho que não é diferente de qualquer outra banda. Nós expressamos nossas ideias e as encaminhamos uns aos outros digitalmente. Seria legal ter um “acampamento de banda” completo com 80% do material pronto e moldar o resto antes de gravá-los no estúdio e espero que desta vez possamos fazer algo assim.
Da última vez, antes de fazermos alguns shows na Finlândia, nos reunimos em Helsinque para praticar três dias juntos antes dos shows. A química da banda é alucinante com essa formação e não precisamos de muito tempo para começar a ler um ao outro musicalmente.
JS: Os shows parecem ser super enérgicos, a banda tem previsão de se apresentar no Brasil? Como é a relação de vocês com o país?
Jules Näveri: Tocar no Brasil com o Rootbrain seria um sonho se tornando realidade, especialmente para mim, porque moro aqui há 13 anos. Assim que tivermos uma ideia inteligente para financiar alguns shows no Brasil, estaremos prontos. Tudo isso, é claro, depende de organização, mas se pudermos descobrir uma maneira inteligente e não perder dinheiro, isso resolveria o problema! Tenho a sensação de que isso vai acontecer um dia…
JS: Comente um pouco sobre o nome da banda.
Jules Näveri: Existe uma teoria sobre o ‘rootbrain’ e, em poucas palavras, é sobre plantas e árvores se comunicando entre si. Vou deixar sua imaginação fazer o resto, haha!
JS: Quer deixar mais algum comentário?
Jules Näveri: Muito obrigado pela oportunidade de falar com os seguidores de O Jardim Sonoro, agradecemos muito! Confira nosso EP, ‘Mothertomb’ em todas as principais plataformas de streaming!
Mais sobre Rootbrain
Rootbrain é uma banda de metal alternativo que combina grunge pesado, groove e melodias retiradas diretamente do doom. Com integrantes que fazem parte de bandas renomadas no cenário do metal extremo como Triptykon e Profane Omen, a banda criou um som único que une intensidade extrema com suaves sensibilidades melódicas.
Seu álbum de estreia Breakwater (2023) foi um marco importante, e este novo EP Mothertomb representa um próximo passo em sua evolução sonora. A banda trabalha atualmente em seu segundo álbum, previsto para ser gravado ainda este ano.
Rootbrain é:
Jules Näveri – Vocais (Profane Omen, Enemy of the Sun, Spiritraiser)
V. Santura – Guitarra Solo (Triptykon, Dark Fortress)
Hurja Helle – Guitarra Rítmica (Dauntless)
Thomas Wright – Baixo (Kuolemanlaakso, The Nibiruan, Elenium)
Fat Tony – Bateria (Kuolemanlaakso, Ghoulstars, Discard)
Rootbrain online
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