Com foco na força das mulheres do metal, Dark Dimensions Fest acerta no line-up e deixa questionamentos sobre representatividade.
No último dia 25 de janeiro, aconteceu no Carioca Club, em São Paulo, o Dark Dimensions Fest, que contou com um line-up cheio de nomes do death/thrash e crossover nacional e internacional. O festival foi fortemente marcado pela presença das mulheres, desde o início da divulgação. Afinal ele foi encabeçado por uma das bandas femininas mais aclamadas do death/thrash, a Nervosa. Além dela, tocaram The Damnnation, Throw me to the Wolves, Eskröta, Elm Street e Torture Squad. Além de diversas participações que as bandas trouxeram. Confira como foi.
The Damnnation
Apesar de a apresentação do The Damnnation ter começado super cedo, um bom público já estava presente no Carioca Club, ainda que tímido. O trio de death/thrash formado por 3 garotas tocou bem e fez um som pesado e super equilibrado tecnicamente. Isso porque é possível ouvir cada instrumento e perceber o brilho de cada integrante, sendo elas: Renata Petrelli (vocal/guitarra), Leonora Mölka (bateria) e a recém-recrutada Fernanda Lessa (baixo).
Isso é algo importante de mencionar porque a sonoridade da banda realmente parece diferente do que elas apresentavam há alguns anos atrás. É notável o quanto elas evoluíram, já que saíram de um som basicamente sujo para algo mais elaborado, nítido e cheio de referências da música pesada. Mas tudo isso sem perder a velocidade, que sempre foi uma característica delas.

Assim, a nova formação veio com ainda mais peso, deixando claro o quanto um trio é capaz de fazer muito barulho. The Damnnation são rápidas e precisas do início ao fim e mesmo quando a música é um pouco mais lenta (se é que isso é possível), elas logo chamam de balada. Mas não se engane, é tudo pura ironia.
Ah e lembra do público tímido do início? Já quase ao final do show, um mosh cauteloso se formou em algumas músicas. Mas um detalhe interessante é que parecia mesmo que o pessoal estava com medo de escorregar no piso liso do Carioca Club. Mas isso viria a mudar adiante…
Throw me to the Wolves
O Throw me to the Wolves não contou conversa. Assim que a cortina abriu, eles já entraram na porrada preenchendo o Carioca Club de uma forma impressionante. A sonoridade realmente tomou conta do lugar e não tinha como não olhar pra eles, apresentando uma qualidade técnica indiscutível. Sabe uma banda em que todo mundo se destaca? Esse é o Throw me to the Wolves.
E, um outro ponto de destaque vai para o vocalista, que tem bastante presença de palco e carisma em se comunicar com o público. Ele consegue chamar as pessoas para o show e fazer todo mundo interagir.

A banda tem um poder gigantesco ao vivo e eu fico aqui me perguntando em que toca de lobo eles estavam escondidos, que eu não tinha os encontrado ainda. De todos que se apresentaram, talvez eles sejam os que menos se adequam à caixinha death/thrash, visto a sua diversidade sonora. Mas não faltaram solos de guitarra, muita movimentação no palco e um show intenso de encher os olhos (e os ouvidos).
Eskröta
Eskröta é mais um mega trio que quebra tudo no palco com um show intenso e que não pára um minuto sequer. Foi quando o público realmente se animou no mosh e ainda contou com a ajuda de algumas bolas que voavam pelo ar e exigiam um verdadeiro exercício de equilíbrio da galera.
Enquanto isso, a Eskröta moeu seu crossover cheio de mensagens cortantes sobre anti fascismo e feminismo. Aliás, Yasmin, guitarrista da banda, aproveitou para comentar a importância do Dark Dimensions Fest nesse sentido, já que trouxe tantas bandas com mulheres que são influentes e super relevantes no cenário do metal.
Assim como a Eskröta, claro, que tem batido o ponto em todos os festivais de música pesada pelo Brasil. E isso não é de se admirar, afinal o show da banda já é construído para promover momentos de interação, aproximação com o público e reflexão sobre as mensagens que eles querem passar. Nisso, não faltaram hinos como “Instagramável”, “Mosh feminista” e “Não entre em pânico”.

Aliás, para a música “Não entre em pânico”, a banda aproveitou para levar ao palco o personagem mascarado do filme homônimo. Sendo, sem querer, um gancho para o que viria depois, a banda Elm Street (você logo vai entender). Além de apresentar um show nervoso, a banda convocou o público para se enfrentar e foi capaz de finalmente desbloquear o medo da galera de cair (literalmente) num mosh insano. Em resumo, a banda entregou um verdadeiro show de música e interatividade.
Elm street
A banda Elm Street é australiana e focada em filmes de terror, vide a referência de seu nome ao filme “Nightmare on Elm Street”, ou Hora do Pesadelo, o famoso filme do Freddy Krueger.
Mas apesar da inspiração, a banda não leva essa referência para o visual e fica só nas letras mesmo. Então, no palco, o que eles levam? Você pode esperar muito thrash, guitarras flying V, bateção de cabeça sincronizada, muita pose, velocidade e peso do jeito que a galera gosta. O show é realmente bem divertido e daqueles que não tem um minuto de pausa nem muito papo. É só porrada atrás de porrada e solos virtuosos.

O público fica na atenção, super contemplativo, porque não tem como tirar os olhos mesmo deles. Apesar de muito bons, eles pareceram meio receosos de interagir com o público, talvez por ser a primeira vez deles no Brasil. A banda tem estado em turnê com as brasileiras do Nervosa, com quem se aproximaram devido a produtora Dark Dimensions. Vale super a pena conhecer o trabalho deles.
Torture squad
Apesar de terem entrado com 10 minutos de atraso, a banda conseguiu mostrar por que arrasta multidões há décadas. O Torture Squad faz um show estrondoso, não só em termos de som, mas de qualidade técnica e de produção artística. Dá pra ver o quanto cada detalhe é pensado para que nada saia do lugar.
Atualmente passando por uma nova fase, a banda trouxe bastante diversidade sonora incluindo violões com som limpo e ritmos universais, que vão além do rock. Mas tudo isso sem deixar o peso de lado, afinal, sem isso não seria o Torture Squad. O show é intenso e vivido a cada segundo pelo público, que vibra, se joga no mosh e contempla.

Em dado momento, Mayara Puertas, vocalista da Torture Squad, mencionou a recente perda da banda: Cristiano Fusco, fundador do grupo, que morreu de câncer na medula óssea. Além disso, ela falou da importância da presença das mulheres no Dark Dimensions Fest:
“Que bom ver mulheres aqui no palco, no público e na produção. Que bom ver que não estamos sozinhas”.
Faltou só lembrar que as mulheres também estão na imprensa, hein, Mayara!!
A banda ainda recebeu no palco a icônica Leather Leone (conhecida por liderar os grupos Rude Girl e Chastain na década de 1980), que trouxe um pouco do seu espírito hard para o show. Na interação, Mayara pôde exibir seu vocal limpo, enquanto Leather mostrou que está em plena forma. O público retribuiu animado e vibrou nas tentativas da cantora de falar português.

Nervosa
A apresentação da banda Nervosa nesse Dark Dimensions Fest foi a primeira da turnê comemorativa de 15 anos da banda. O show era o mais esperado da noite e não decepcionou, afinal a Nervosa já é bem reconhecida pelo som rápido e cortante, que faz todo mundo bater cabeça sem parar. As headliners encantaram o público que aguardou por elas desde cedo e que lotou a pista do Carioca Club.
Já sobre o foco na participação das mulheres, a vocalista Prika Amaral mencionou o fato de a baixista original estar com um bebê pequeno e como elas têm lidado com a sua substituição nos shows. Ela enfatizou que as mulheres não podem ser excluídas por conta da maternidade. Um gancho para o grande ponto focal do festival, que foi a força das mulheres no metal.

E, para celebrar o poder feminino, a Nervosa convidou ao palco outros dois grandes nomes da noite: Mayara Puertas (Torture Squad) e Yasmin Amaral (Eskröta), que subiram para cantar a música “Cultura do estupro”.
Além delas, a banda convidou, ainda, o vocalista do Krisiun Alex Camargo, que cantou a música “Ungrateful”. A Nervosa segue em turnê com datas pelo Brasil e exterior e já nos deixa na curiosidade de quem mais elas chamarão ao palco. Você tem alguma aposta?
Dark Dimensions Fest foi sobre as mulheres?
Sendo fortemente pautado na presença das mulheres no metal, o Dark Dimensions Fest acertou bastante no line-up levando artistas tão relevantes da cena atual. Mas o mais interessante é perceber que a diversidade também estava presente no público. Sim, havia muitas garotas entre os fãs, assim como muitos homens ostentando camisetas das bandas femininas e também uma forte presença do público LGBT. Algo que, até pouco tempo atrás, era meio que impensável, visto o grande conflito que ocorria entre o público majoritariamente masculino em shows de death/thrash e mulheres e LGBT’s.
Apesar de o público do death/thrash ser ainda tão fechado e preso a preconceitos, dá pra notar que aos pouquinhos ele está sim se misturando e conseguindo abrir espaço para a diversidade. Ao menos quando se fala de aceitação. No entanto, ainda se ouvia comentários do tipo: “gostava mais do Torture quando a Mayara era mais troozona” ou “prefiro a Nervosa porque elas são mais sem frescura”. No geral, ainda há muito do que se absorver das mensagens das bandas atuais, mas o que importa é que o caminho já está sendo trilhado. E festivais como esse são uma chave importante para isso.











































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