Após 20 anos de trajetória, a banda paulista Fenícia celebra a carreira com o lançamento do EP Meu Bem. Em entrevista ao O Jardim Sonoro, o grupo fala sobre sua poesia cotidiana, a parceria com Bola (Zimbra), as mídias digitais e a liberdade de não se prender a rótulos.

Em um mercado musical em constante transformação, permanecer fiel à própria essência e continuar se reinventando por duas décadas é uma conquista reservada a poucos. É exatamente esse o marco celebrado pela Fenícia. Nascida em 2006 em Descalvado, no interior de São Paulo, a banda de rock construiu uma trajetória sólida baseada em letras sensíveis, crônicas do cotidiano e uma sonoridade que passeia com naturalidade entre a leveza e a urgência.

Com o lançamento do recente EP Meu Bem, o grupo reafirma sua identidade visual e sonora, trazendo parcerias marcantes — como a participação de Rafael Bola, da banda Zimbra — e composições que capturam desde a calmaria reflexiva até a acidez necessária para protestar. Tudo isso mantendo a independência e o amor pelo olho no olho das apresentações ao vivo.

Conversamos com a Fenícia sobre os altos e baixos desses 20 anos de história, as metamorfoses no jeito de consumir e produzir música, a concepção estética dos seus trabalhos e o desejo de continuar transformando vivências reais em arte sem prazos de validade. Confira:

A essência do rock e os desafios do algoritmo em duas décadas

OJS: Antes de mais nada, que linda história de vocês. São 19 anos de carreira e uma sonoridade que evoluiu com o tempo, mas permaneceu consistente. Então, logo de cara, eu queria saber: Como a banda se descreve? Quem é a Fenícia e quem vai amar ouvir suas músicas?

Fenícia: Ah, muito obrigada pelo carinho. Na verdade, são 20 anos de carreira, pois contamos desde o dia 12 de agosto de 2006, quando lançamos nosso primeiro álbum com um show ao vivo em Descalvado – SP. Essa é uma pergunta difícil, pois como a Fenícia nos acompanha desde a nossa adolescência, ela acabou acompanhando também os altos e baixos que enfrentamos em nossas vidas pessoais. Ela teve muitas fases, então é bem difícil encontrar uma caixinha completamente fechada que ela caiba, que a defina ou que a descreva. 

Nós somos uma banda brasileira de rock, que sempre respeitou com muito amor todas as fases que a Fenícia precisou ocupar e todas as pessoas que passaram por aqui, seja como equipe, como público. Somos completamente abertos a experimentar tudo o que tenha sentido pra nós e isso acontece no som, nas letras e no posicionamento. A gente lida com a nossa verdade, respeita o que sai de dentro mesmo… E acho que é aí que quem conhece a Fenícia vai sacar como se identifica, com o que ouve e com o que vê pra poder ficar junto da gente. 

OJS: Com tanto tempo de estrada, qual a principal mudança interna que vocês notaram? Os temas das letras, os sonhos…?

Fenícia: Realmente muita coisa mudou, mas acho que muda o tempo todo… E isso é massa! A gente começou muito mais preocupados em fazer música e, com o tempo, passou a entender que também estava construindo uma identidade, uma história e uma maneira própria de enxergar as coisas. 

Sobre os sonhos, alguns ficaram pelo caminho, outros ganharam novas formas e apareceram sonhos que a gente nem imaginava ter quando começou. Hoje existe menos necessidade da Fenícia provar alguma coisa e muito mais lealdade em ser verdadeira com o que a gente quer fazer. 

E isso aparece nas músicas, né… Mais força pra gritar sobre temas urgentes, mais coragem pra falar sobre nossas vulnerabilidades. A nossa essência continua, mas a forma de soar, de dizer as coisas vai mudando conforme a gente muda. 

OJS: E no mundo musical em si, quais as maiores mudanças que vocês notam? Pergunto porque promover uma banda hoje é totalmente diferente de anos atrás. Quais os maiores desafios?

Fenícia: Mudou absolutamente tudo. Quando começamos, a relação com o público era muito mais baseada em show, CD, rádio, divulgação física. Hoje você precisa estar presente o tempo inteiro no digital. Tem streaming, redes sociais, vídeos, conteúdo, algoritmo. 

Não tem como ser apenas músico, você precisa tentar fazer (sem conhecimento) o trabalho de fotógrafo, editor, designer, produtor, social media… Ou então construir uma base e financiar uma equipe que vai cuidar de tudo para você, mas essa não é a realidade do artista independente.

Ficou muito mais fácil colocar sua música no mundo, mas, ao mesmo tempo, ficou muito mais difícil ser ouvida no meio de tanta coisa. 

Acho que esse é um dos maiores desafios de uma banda independente hoje: conseguir continuar fazendo música com verdade sem transformar tudo em uma obrigação de produzir conteúdo. No fim, a gente tá resistindo e tentando dar conta de tudo isso, mas ainda acreditamos muito no encontro, no show, na pessoa que escuta uma música e se identifica, naquela conversa depois da apresentação. Isso continua sendo muito poderoso .

Poesia da vida real e pluralidade artística

OJS: As músicas de vocês são super tocantes e cotidianas, tem aquele ar de crônica, mas cheio de poesia. Isso é legal porque traz o ouvinte para ainda mais perto da banda. De onde parte a inspiração para contar essas histórias? Elas são mais pessoais ou vem da observação externa?

Fenícia: A inspiração vem muito da vida real. Às vezes de uma coisa que aconteceu com a gente, alguma luta; às vezes de uma conversa que ouvimos, uma pessoa que encontramos; uma cena na rua, assuntos urgentes, uma lembrança, responsabilidades sociais, sistemas, padrões… Tudo nos inspira, nos move e nos faz pensar como queremos nos comunicar. Não existe um formato, um tema específico, existem sentimentos que viram letras de acordo com o momento que estamos vivendo, seja em nossas vidas pessoais ou no coletivo mesmo 

OJS: Posso compartilhar a minha música preferida? “Mar de dentro”. Além de ter uma letra linda, tem uma animação super fofa. E eu percebi que a parte visual da banda é bem marcante, tanto na capa dos singles quanto na divulgação em geral. É tudo produzido por vocês? Há colaboração com outros artistas visuais? Como isso acontece?

Fenícia: “Mar de dentro” é uma música muito especial para a gente, então ficamos muito felizes quando alguém escolhe justamente ela. A parte visual sempre foi muito importante para a Fenícia. A gente gosta de pensar que a música não termina no áudio. Ela se faz com a soma de uma imagem, uma textura, uma cor, uma animação, uma cena… E isso adiciona artistas no processo. 

Temos a honra de termos trabalhos de artistas incríveis na nossa trajetória. São muitos! Fenícia sempre foi um projeto de muitas mãos. O clipe de “Mar de Dentro”, já que citamos essa animação maravilhosa, foi feito pela artista Andrógine Zago, que inclusive também fez a capa do EP Meu Bem e da canção “Faminta”. 

O EP Meu Bem: Colaborações, nuances e o futuro

OJS: O mais recente EP, Meu bem, tem uma parceria bem legal com Zimbra na música “São 02:03 (Nem tão colorida)”, que enriqueceu ainda mais a canção. Como surgiu a ideia dessa collab? Foi uma composição conjunta?

Fenícia: A parceria na verdade é com o Bola que integra a banda Zimbra. A música é uma composição da Ninne e da Fenícia e já tinha uma atmosfera muito própria. A participação veio justamente para somar à história que estava contando, uma vez que Ninne e Teuz já curtiam muito o trabalho do Bola e da Zimbra e com certeza existe muita inspiração alí. 

OJS: O EP, no geral, tem uma atmosfera bem tranquila, de quem observa a vida, mas a última música, “Azeda”, é bem diferente das outras. Ela tem um ar mais raivoso e é interessante como a sonoridade acompanha, deixando o trabalho bem dinâmico. Comenta um pouco mais sobre como vocês pensaram as diferenças de atmosfera de cada composição. 

Fenícia: A gente não pensou muito nisso, na verdade, em como ia soar o EP como um todo. Fomos compondo e respeitando o que saía. “Azeda” é uma parceria de letra com um querido amigo: Léo Spanghero. Fazia um bom tempo que tentávamos dar uma cara para ela, mas não acontecia. Aquele foi o momento!!! Ela tem uma energia mais nervosa, mais ácida mesmo, e a sonoridade precisava acompanhar. 

A Fenícia tem isso, temos algumas músicas mais pesadas, outras mais leves, mais isso, mais aquilo… É o que falei anteriormente sobre deixar sair sem pensar muito em caixinhas ou rótulos. Talvez ela seja mais parecida com as canções anteriores que lançamos em forma de single: Presa, Dinamite 09, O que eu não contei… 

EP Meu Bem

OJS: Com esse EP no mundo, quais os próximos passos da banda? O que podemos esperar de novidade daqui pra frente?

Fenícia: A primeira coisa é continuar compondo, lutando, encontrando e conectando pessoas. No fim das contas, é para isso que a música existe para a gente. Estamos vivendo um momento muito especial da história da Fenícia: são 20 anos. Então, existe uma vontade enorme de olhar para tudo que já fizemos, mas sem ficar preso ao passado. É sobre seguir mesmo!!! 

Tem muita coisa sendo pensada, novas músicas, novas possibilidades de shows e também uma vontade de experimentar formatos diferentes. Acho que o que dá para esperar é uma Fenícia que continua reconhecível, mas que não está parada no mesmo lugar.

Depois de 20 anos, a gente descobriu que envelhecer junto com a banda é justamente poder continuar mudando. 

Fenícia. Foto: divulgação.

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