Nesta entrevista, a Válvera analisa sua trajetória, comenta a parceria com grandes nomes do metal brasileiro, a experiência em festivais e detalhes do álbum ‘Unleashed The Fury’.

Formada no interior paulista e construída passo a passo com forte planejamento e garra, a banda chega ao seu trabalho mais recente, Unleashed The Fury, unindo o peso clássico do gênero a uma sonoridade moderna, coesa e sem medo de explorar novas linguagens.

Em seu novo trabalho, a banda se aprofunda em questões visceralmente humanas — como o luto, a perda e a instabilidade emocional — ao mesmo tempo em que lança um olhar atento e crítico à realidade social brasileira, retratando o caos urbano e a vulnerabilidade da Cracolândia. O resultado é um trabalho marcado pela resistência, consolidado por turnês internacionais e chancelado por grandes mestres do metal nacional.

Em papo aberto com O Jardim Sonoro, os integrantes do Válvera comentaram o processo de criação de Unleashed The Fury, a transição para o inglês, os aprendizados da estrada e como a fúria do título se transforma em energia para continuar na ativa. Confira:

Fúria como resistência: luto, caos social e o thrash metal moderno

OJS: Unleashed The Fury traz temas bastante pessoais nas letras como luto e instabilidade emocional, mas também não deixa de lado a crítica social quando menciona a cracolândia, por exemplo. É uma intensa mistura de sentimentos. O que esses temas dizem sobre a banda? Qual a principal mensagem que vocês querem passar?

Glauber Barreto: O Unleashed Fury é, talvez, o álbum em que a gente mais se permitiu falar de coisas que realmente fazem parte da nossa vida. O luto, as perdas, a instabilidade emocional, a raiva, as frustrações e também aquilo que a gente observa acontecendo ao nosso redor. São sentimentos muito humanos, e acho que o metal sempre foi um espaço muito verdadeiro para colocar tudo isso para fora. 

Ao mesmo tempo, a gente nunca quis fazer um álbum olhando apenas para dentro. A realidade que nos cerca também está presente. Quando falamos da Cracolândia (Necropolis), por exemplo, não estamos tentando simplesmente apontar o dedo para um problema, mas mostrar uma realidade que está diante dos nossos olhos e que muitas vezes é ignorada ou tratada de uma maneira extremamente superficial. 

Acho que o que esses temas dizem sobre o Válvera é justamente isso: somos uma banda que não tem medo de olhar para as coisas como elas são. O Unleashed Fury fala de dor, raiva, perda e caos, mas também fala de resistência. A principal mensagem, para mim, é que mesmo quando a vida coloca a gente em situações difíceis, existe uma necessidade de continuar, de enfrentar e de transformar aquilo em alguma coisa. No nosso caso, essa transformação acontece através da música. A fúria do título não é apenas destruição; é também energia para seguir em frente.

OJS: A sonoridade do Válvera está apoiada no thrash, mas há bastante modernidade no som, especialmente no álbum mais recente. E isso é algo que cada vez mais bandas de thrash atual tem explorado, perdendo um pouco a característica mais suja comum do old school. Enquanto amantes e compositores do estilo, como vocês veem essa evolução?

Vitor Bonati: Eu vejo essa evolução como algo muito positivo para o estilo. O thrash sempre teve essa característica de ser agressivo e pesado, mas acho que a utilização de elementos mais modernos agrega muito às músicas, trazendo mais dinâmica, variedade e possibilidades para as composições, sem necessariamente perder a essência do gênero.

Além disso, acredito que essa mistura acaba ajudando o estilo a alcançar um público novo, que talvez não tivesse tanto contato com o thrash mais tradicional. Para nós, explorar essas possibilidades é uma forma de manter o estilo vivo e, ao mesmo tempo, levar o Válvera para novos lugares.

A parceria com Pompeu (Korzus) e a bagagem internacional

OJS: O Pompeu, do Korzus, produziu os dois primeiros álbuns da banda, correto? E ele também esteve presente no lançamento do álbum mais recente de vocês. Como a banda vê essa parceria ao longo do tempo com um nome tão marcante do metal brasileiro?

Glauber Barreto: O Pompeu é uma figura muito importante na história do Válvera. Ele produziu nossos dois primeiros álbuns e, de certa forma, acompanhou uma parte muito importante da nossa formação enquanto banda. Quando você está começando, ter alguém com a experiência e a história que ele tem dentro do metal brasileiro é algo que deixa uma marca muito grande. E o mais legal é que essa parceria não ficou presa àquele período inicial. 

A gente continuou mantendo essa relação ao longo dos anos, e ele esteve presente também no lançamento do Unleashed Fury. Isso tem um significado muito especial para nós, porque mostra que algumas conexões construídas dentro da música realmente atravessam o tempo. O Pompeu representa uma geração muito importante do metal brasileiro, e o Korzus é uma banda que ajudou a abrir caminho para muita gente que veio depois. 

Para uma banda como o Válvera, que começou no interior de São Paulo e foi construindo sua trajetória passo a passo, ter essa proximidade e esse reconhecimento de alguém como ele é algo que valorizamos muito. Mais do que uma parceria profissional, existe uma relação de respeito, amizade e confiança. E acho que isso é uma das coisas mais bonitas da nossa história: depois de tantos anos, tantos discos e tantos shows, algumas pessoas continuam fazendo parte da caminhada. O Pompeu é, sem dúvida, uma delas.

OJS: Vocês já fizeram várias turnês internacionais. O que  mais trazem de aprendizado na bagagem e que pode servir de conselho para outras bandas que estão em busca de trilhar o mesmo caminho?

Válvera: Organização e persistência são pré-requisitos: financeiro, logística, merch, planejamento do trajeto, aguentar períodos extensos na estrada, convivência, etc. Se não tiver nada disso, você não vai pra frente, a turnê vira uma experiência ruim, e isso destroi uma banda.

OJS: A banda tocou no Bangers Open Air de 2025. Qual a principal diferença, em termos de sentimento, entre fazer shows internacionais e dentro do Brasil?

Rodrigo Torres: Tudo é diferente em um festival com o porte do Bangers Open Air. O sentimento é diferente também, é surreal você saber que todo mundo que está em um festival como esse é fã de metal e de rock assim como você. Isso torna a experiência uma coisa única. Ver todos aqueles headbangers reunidos curtindo o seu som é realmente diferente de tudo que já vivemos. 

Em termos de sentimento sobre tocar dentro e fora do país, nossa ideia no Válvera é muito simples: em qualquer lugar do mundo subimos no palco para botar pra foder. Dito isso, é muito gratificante tocar fora e estar fazendo algo que nem todos os artistas conseguem. Ali no palco você está literalmente representando o Brasil e isso é algo muito legal. Já fizemos 4 turnês internacionais (3 na Europa e 1 na América Latina) e sempre foi muito bom, mas tocar em casa no Brasil também é sensacional.

Mudanças estratégicas e mudanças da nova fase 

OJS: Recentemente, vocês incorporaram um novo baterista. Como essa mudança influenciou na sonoridade de vocês?

Válvera: Nos shows, o Vitor toca mais “na régua”, vamos dizer assim, enquanto os nossos ex-bateristas tinham um play mais solto, mais livre – incluindo os andamentos – o Vitor é mais consistente e gosta de tocar com metrônomo. Isso ajuda a banda tanto em partes mais difíceis do instrumental, quanto nas partes vocais. Futuramente, o plano é agregar as influências, a identidade musical dele pro nosso som.

OJS: A banda começou cantando em português no primeiro álbum Cidade do Caos (2015), mas os seguintes estão em inglês. O que mudou de lá pra cá para esse tomada de decisão?

Rodrigo Torres: A mudança das nossas músicas do português para o inglês ocorreu por motivos de mercado e da reação do público.Investimos muito tempo e esforços na gravação e divulgação “Cidade Em Caos” e não tivemos as nossas expectativas correspondidas. Sendo assim, resolvemos mudar para o inglês e, logo de primeira, aumentamos os nossos shows e várias pessoas começaram a nos seguir e nos acompanhar. Isso sem contar no alcance que nossas músicas passaram a ter.  Então, em termos de estratégia, consideramos essa mudança um dos maiores acertos da nossa carreira.

OJS: Unleashed The Fury é um trabalho super recente, mas quais os principais planos da banda ainda para 2026? O que vem por aí?

Vitor Bonati: Para 2026, nosso principal objetivo é continuar trabalhando forte na divulgação do Unleashed The Fury, fazendo o máximo de shows possível e levando o álbum para cada vez mais pessoas e lugares. Ao mesmo tempo, já queremos começar a dar os primeiros passos na composição do nosso próximo álbum. Então, a ideia é aproveitar o momento que estamos vivendo com o Unleashed The Fury, mas também já começar a construir o que vem pela frente 

Mais sobre válvera

Formado em 2010, o Válvera é um dos nomes mais consistentes do metal brasileiro contemporâneo, com quatro álbuns de estúdio lançados, incluindo Unleashed Fury (2026). Conhecida por suas apresentações intensas e enérgicas, a banda já realizou mais de 300 shows e diversas turnês internacionais pela Europa e América Latina, dividindo o palco com nomes como Sepultura, Sabaton, Powerwolf e Prong

Apontado pela mídia europeia como um dos representantes do neo thrash metal, o grupo prepara agora uma nova turnê sul-americana ao lado da banda norte-americana Drowning Pool, com apresentações em diversos países do continente. No dia 23 de março de 2026, o Válvera lança também o videoclipe da faixa “Unleashed Fury”, gravado durante o show de lançamento do álbum na Burning House.

Válvera é:

Vocal e Guitarra: Glauber Barreto

Guitarra: Rodrigo Torres

Baixo: Gabriel Prado

Bateria: Vitor Bonati

Válvera online:

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