Em meio ao lançamento de ‘On the Shortness of Life’, álbum inspirado no filósofo Sêneca, os veteranos do HIBRIA comentam a fase atual da banda, discutem filosofia e celebram o retorno aos palcos do Japão, nesta entrevista.
Três décadas de estrada não são para qualquer um, e o HIBRIA sabe muito bem como usar essa bagagem a seu favor. Reverenciada no Brasil e com um histórico consolidado no circuito internacional — incluindo participações no Rock in Rio, Loud Park e oito turnês pelo Japão —, a banda gaúcha de metal vive um momento de renovação e amadurecimento com o lançamento de seu oitavo álbum de estúdio, On the Shortness of Life, inspirado no clássico Sobre a Brevidade da Vida, do filósofo romano Sêneca.
O novo trabalho combina o peso usual do Hibria com as novidades trazidas pelos novos integrantes e ainda agrega reflexões estóicas sobre o tempo, a finitude e as escolhas humanas. E tudo isso chega em um momento em que a banda comemora 20 anos de seu álbum de estreia Defying the Rules.
Conversamos com o vocalista Angelo Parisotto e o guitarrista e fundador Abel Camargo sobre como transformar conceitos filosóficos em riffs avassaladores, a recepção calorosa no mercado asiático, a nova formação e os próximos passos do HIBRIA nos palcos. Confira a entrevista a seguir!

Três décadas de heavy metal: respeito ao passado e energia da nova formação
OJS: Recentemente, vocês comemoraram os 20 anos do disco Defying the Rules e também lançaram o novo álbum On the Shortness of Life. Qual a sensação de revisitar a própria história ao mesmo tempo em que trazem novas criações ao mundo?
Angelo Parisotto: A perspectiva é muito peculiar. Ela mostra muito bem como o HIBRIA se permite visitar coisas novas, mas mantém aquele “molho” que está lá desde o Defying the Rules. Minha entrada na banda se deu nesta etapa e trazer novas ideias, texturas vocais e influências foi muito realizador. Acho que é evidente que o próprio histórico do HIBRIA apareceu nessas novas composições, o Defying não é exceção.
OJS: A banda já conta três décadas de atividade. Eu, pessoalmente, lembro bem do primeiro show do Hibria que vi, no Rock in Rio de 2013. Quais os momentos mais importantes da história da banda, na sua opinião, e como vocês se sentem em ser um nome tão marcante do metal nacional há tanto tempo?
Abel Camargo: Fico feliz em saber que tu estava no nosso show no Rock in Rio. Sem dúvidas, um dos momentos mais marcantes da carreira da banda até então.
O HIBRIA tem uma trajetória sólida no Japão desde o lançamento do nosso primeiro álbum “Defying the Rules” (2004). Em outubro, iremos tocar na Terra do Sol Nascente pela oitava vez. E, entre tantas passagens de enorme sucesso por lá, gostaria de destacar a gravação do nosso DVD “Blinded by Tokyo” – lançado em 2012, na tour do nosso terceiro CD “Blind Ride” – 2011, e também as duas vezes em que tocamos no Loud Park (2009, 2012), que é um dos maiores festivais de Metal do mundo e do Japão. Aberturas memoráveis para os gigantes Metallica, Ozzy, e Black Sabbath também fazem parte do nosso vitorioso histórico.
É uma honra imensa sermos considerados umas das bandas mais importantes do Metal nacional. Acabamos de lançar o nosso oitavo trabalho de estúdio “On the Shortness of Life”, que traz um HIBRIA ainda mais pesado e visceral. Espero que vocês gostem desse novo álbum e compareçam aos nossos shows.
OJS: A banda também renovou a formação recentemente. O que vocês acreditam que mudou na sonoridade com essas novidades?
Angelo Parisotto: Acredito que as vozes foram as principais responsáveis pela mudança de sonoridade desta nova formação. Eu procurei trabalhar com linhas vocais, timbragens, drives e tessituras vocais que o HIBRIA nunca tinha abordado. Além disso, tem todo um lado teatral que buscamos trazer nas interpretações.
Os vocais do Velles também tiveram uma presença bastante grande neste novo álbum e tanto ele quanto o William (Schuck, baterista) tem várias influências do metal moderno que acredito terem ficado muito perceptíveis nos arranjos e composições.
A produção de Renato Osório foi essencial para dar a liga para esta nova cara da banda. Junto com isto, o Abel e o Benhur conseguem dar a firmeza que a história do HIBRIA sugere.
A sensação que fica é: é diferente, mas é HIBRIA.
Filosofia em tempos acelerados
OJS: O novo álbum On the Shortness of Life é inspirado na obra Sobre a Brevidade da Vida, do filósofo romano Sêneca. O que motivou a banda a trazer essa temática? Ela, de algum modo, conversa também com a vida pessoal de cada integrante?
Angelo Parisotto: O conceito lírico foi trazido pelo Abel para a banda. Ele gosta muito da linha filosófica estóica ao qual Sêneca pertence e eu sempre fui um estudioso de filosofia. O tema casou muito em todas as esferas: a filosófica, musical e – invariavelmente – pessoal também.
Acredito que o estoicismo aborda o que é caro a todos nós, trazendo reflexões que são atemporais. Acho que é isto que pode tocar quem procurar se aprofundar nas composições: a passagem do tempo e sua inexorabilidade. Os anos passam, a vida não volta e temos que constantemente lidar com os caminhos que buscamos seguir. Há algo que atravesse a todos nós de maneira mais homogênea do que isto?
OJS: Como vocês acreditam que as reflexões da filosofia — algo que exige tempo e pausa — podem ser inseridas no dia a dia das pessoas, já que estamos justamente numa era extremamente acelerada?
Angelo Parisotto: A principal provocação é paradoxal. Buscamos viver muito, o tempo todo, de todas as coisas, ao mesmo tempo que, neste processo, vivemos cada vez menos. A reflexão exige tempo, silêncio – até mesmo tédio. Consumir uma obra passa diretamente sobre isso. Talvez isso seja um dos motivos que trazem tanto a nostalgia para a contemporaneidade: as obras que mais nos marcaram são fruto de um tempo em que nosso consumo tinha outros padrões. Ouvir várias vezes o mesmo álbum, escolher com calma o que vai assistir…
Se há uma reflexão estóica para se trazer daqui, talvez seja o de que nós só temos uma vida, um tempo. O alarmismo deste raciocínio não pode nos levar a viver com pressa, mas sim o de usufruir dos momentos como os pratos de um restaurante: saboreando cada momento. Parece-me contraditório pedir um prato de um ótimo restaurante para comer com pressa, sem degustar. A lógica aqui é a mesma.
O estoicismo de Sêneca traduzido em riffs
OJS: Quando pensamos em filosofia é comum associarmos a sentimentos como calma e reflexão. No entanto, vocês trazem a ideia para um álbum de metal e muito barulho. Algumas músicas até remetem um pouco a sensação de paz, digamos assim, como em alguns trechos de “Against the Wall” e o final da faixa-título, por exemplo. Como vocês montaram a estrutura sonora do álbum pra passar a mensagem de cada letra?
Angelo Parisotto: Quando pensamos na estrutura do álbum, pensamos justamente em como passar o sentimento de maturidade e serenidade conforme ele transcorre. A audição começa com músicas mais intensas e vigorosas e se desenrolam para climas mais soturnos. Ao final, a faixa-título tem como objetivo abraçar essas reflexões que propomos desde a abertura com Undying. A vida não é breve, mas além de tudo, é infinita.
A ideia de vincular momentos narrativos com melodias em algumas músicas é justamente para dar a sensação de delírio e retorno à realidade. A Against the Wall e a On the Shortness of Life servem para aqueles momentos em que nos perguntamos o que fazer, mas mais do que tudo, nos ilustram que as nossas lamúrias são – frequentemente – compartilhadas.
OJS: Ainda sobre estrutura, “On the Shortness of Life” é dividida em cinco capítulos — “Adiaphora”, “Prohairesis”, “Apatheia”, “Ataraxia” e “Eudaimonia”. É interessante ela ser um resumo de todo o álbum. Gostaria que você detalhasse um pouco mais sobre essa composição.
Angelo Parisotto: Nesta composição nos permitimos aprofundar ainda mais o viés filosófico do álbum. Abel trouxe a composição instrumental e me deu carta branca para compôr vozes e letras. O resultado foi uma reflexão que traz alguns conceitos fundamentais da filosofia estóica.
A faixa-título fecha o álbum como uma espécie de desvelamento completo, um manifesto. Se tudo até aqui foram aproximações, aqui a ideia central de Sêneca se expõe sem mediação: a vida não é curta, nós é que a desperdiçamos. Dividida em capítulos, a música percorre um caminho que soa como uma depuração progressiva. Em Adiaphora, há a denúncia: o tempo vendido, a existência automatizada, a ilusão confortável de quem só percebe a morte quando já não há o que fazer. É o retrato mais direto daquilo que o álbum inteiro vinha tensionando desde o início.
Em Prohairesis, surge a virada: a escolha consciente. Não como um gesto grandioso, mas como retomada de autonomia. A vida volta a se expandir não porque o tempo aumenta, mas porque passa a ser vivido com direção.
É o eco mais claro da ideia estoica de que a liberdade está naquilo que depende de nós. Ela não tira o peso do mundo, mas nos traz a compreensão de que a liberdade está na nossa transformação, para transformarmos nosso redor.
Apatheia desloca ainda mais o eixo. A transformação deixa de ser um grito e se torna quase silenciosa. É uma reconciliação com o próprio fluxo do tempo. Aqui, há algo mais íntimo, quase frágil: a percepção de que viver também pode ser leve, mesmo depois de toda a luta.
E então Ataraxia conduz a um estado de aceitação lúcida. Não há mais urgência desesperada, mas também não há passividade. É um movimento contínuo, consciente, onde o sujeito finalmente habita o tempo em vez de persegui-lo.
O fechamento em Eudaimonia não soa como vitória no sentido tradicional, mas como alinhamento. Depois de tudo (o despertar, o confronto, a exaustão e a reconstrução) resta uma forma de viver que não nega a finitude, mas também não se curva a ela.
Como última faixa, ela reorganiza todo o percurso do álbum. O que antes parecia fragmentado se revela como um processo único: aprender, aos poucos, a não deixar a vida escapar enquanto ainda se está vivo. A arte de se escolher para onde ir.
O fim da vida há de ser breve, como um sussurro. Como uma luz que se apaga em uma noite densa.
Mas é na noite mais densa,
No breu mais escuro,
Que a luz que pelo seu breve tempo brilhou permitiu-se em resistência iluminar tudo ao seu redor.
OJS: Pessoalmente falando, “Animus” é a minha faixa preferida, tanto pela sonoridade quanto pela mensagem de que nossa organização interior é capaz de guiar nossa existência. Creio que ela daria um belíssimo vídeo. Vocês pensam em trazer mais produções audiovisuais para reforçar as mensagens do álbum?
Angelo Parisotto: Nós gostamos muito dela também! A ideia do ímpeto interior nos atrai bastante. Temos várias ideias de produções audiovisuais para esse álbum, até porque achamos que ele é ótimo material para isto. Certamente está nos planos aproveitarmos cada vez mais essas composições e arranjos para isso!
Segunda casa no Oriente e os próximos passos na estrada
OJS: A banda tem uma relação próxima com países orientais, especialmente o Japão, correto? Inclusive, o álbum On the Shortness of Life terá edição japonesa pelo selo Marquee Avalon. Vocês pensam em alguma ação especial de lançamento para esse país? Como é a relação de vocês com os fãs de diferentes países?
Angelo Parisotto: A edição japonesa do On the Shortness of Life saiu com uma bônus track da Steel Lord on Wheels gravada pela nova formação. Países asiáticos sempre foram uma segunda casa para o HIBRIA e a banda está indo para o Japão pela oitava vez este ano para tocar no Full Metal Japan, festival organizado com o selo Wacken. Isso só mostra como a receptividade da banda nestes países é sempre muito boa. Temos muito carinho pelos fãs de todos os países, mas os países asiáticos têm um espaço todo deles no nosso coração.

OJS: Com tanta coisa acontecendo, quais são os próximos passos da banda? O que teremos de novidade do Hibria daqui pra frente?
Angelo Parisotto: Temos tantos planos e boas ideias que temos certeza que vocês vão ouvir falar muito do HIBRIA nos próximos anos. Agora, nossa prioridade são as datas que temos este ano: Porto Alegre, São Paulo, Japão, Chapecó… Mas sempre estamos planejando novos passos. A banda tem muita história, mas estamos em uma fase muito boa de sintonia entre os membros. Particularmente, acredito que o metal nacional tem anos muito bons pela frente com nomes incríveis surgindo e ganhando cada vez mais espaço. Tenho convicção que o HIBRIA é um dos grandes nomes para ajudar a puxar essa vanguarda.

Hibria em turnê
Para apresentar o novo álbum, o Hibria prepara uma série de shows no Brasil e no Japão. A agenda passa por Porto Alegre, São Paulo, Tóquio e Chapecó, incluindo uma apresentação ao lado de Angra e Storia e a participação no festival Full Metal Japan. As datas e os locais confirmados estão disponíveis abaixo.
20/Set – Opinião, Porto Alegre
Ingressos: https://bileto.sympla.com.br/event/123208
03/Outubro – Tokyo Marine Hall (com Angra e Storia), São Paulo
25/Outubro – Full Metal Japan, Tóquio, JP.
05/Nov – Centro de Eventos Plínio Arlindo de Nes, Chapecó.

Hibria | On the Shortness of Life Faixas
- Undying
- Fire Away
- Pulse
- Persist
- Melting Alive
- Against the Wall
- Animus
- On the Shortness of Life
Hibria é:
Angelo Parisotto — vocal
Abel Camargo — guitarra
Velles — guitarra
Benhur Lima — baixo
William Schuck — bateria
Hibria online:
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