Mesmo após chuva e ventania intensa, Siso e Salma Jo que reforçam como a música segue movimentando o centro da capital paulista e atraindo um público disposto a ocupar a cidade pela arte.
Depois de um dia em que a chuva e a ventania interromperam a rotina de São Paulo, a noite da última quarta-feira (29) parecia caminhar para o esvaziamento. Mas bastou atravessar as ruas da região da Sé para perceber que a cidade ainda pulsava. Na Casa de Francisca, um dos espaços culturais que têm ganhado relevância no centro paulistano, os shows de Siso e Salma Jô confirmaram que, apesar dos desafios que cercam a região, a cena artística segue viva e encontrando formas de resistir.
Apesar de as condições climáticas terem abalado o dia na cidade, à noite, o clima era de proximidade: gente cantando todas as músicas, dançando sem cerimônia e acompanhando cada momento dos artistas com atenção. Em tempos em que o centro de São Paulo costuma ser lembrado principalmente por seus problemas urbanos, noites como essa mostram que existe uma vida cultural intensa acontecendo ali e que ela continua atraindo quem busca experiências musicais fora dos grandes circuitos comerciais.

Isso não significa ignorar a realidade da região. A Sé convive diariamente com abandono, insegurança e uma população em situação de vulnerabilidade social que evidencia a ausência de políticas públicas consistentes. Ainda assim, reduzir o centro apenas a esses aspectos também apaga a produção cultural que insiste em ocupar seus espaços.
Entre prédios históricos e ruas marcadas por contradições, artistas, casas de espetáculo e o próprio público ajudam a manter uma circulação cultural que resiste mesmo diante dos obstáculos.

Foi nesse contexto que Siso apresentou ao vivo as músicas de Ferro e Fogo, seu novo álbum. Mineiro radicado em São Paulo, o artista retorna seis anos após seu último trabalho autoral com um disco que aborda resistência, ancestralidade e a busca por uma conexão mais profunda com suas origens. No palco, essas composições ganharam outra dimensão e demonstraram o poder que têm de gerar proximidade. A performance de Siso transformou faixas já marcantes em experiências ainda mais potentes diante do público.
Abrindo a noite, Salma Jô levou ao palco a presença magnética que tem marcado sua carreira solo. Natural de Goiânia e ex-integrante da banda Carna Doce, a artista apresentou sua combinação de música eletrônica e indie pop com naturalidade e segurança.
Mesmo diante de pequenos imprevistos envolvendo seus equipamentos eletrônicos, ela incorporou o improviso ao espetáculo sem perder a conexão com a plateia. Pelo contrário: os ajustes feitos durante a apresentação acabaram reforçando o caráter vivo do show e aproximaram ainda mais artista e público.

Talvez esse tenha sido o retrato mais fiel da noite. Assim como o centro de São Paulo, os shows aconteceram apesar das dificuldades. Havia problemas, improvisos e desafios, mas também havia disposição para criar, encontrar soluções e seguir em frente. A arte não apareceu como uma resposta capaz de resolver as contradições da cidade, mas como uma forma de ocupar seus espaços e afirmar que eles continuam produzindo encontros.
A Casa de Francisca, assim como outros espaços no Centro, tem desempenhado um papel importante nesse movimento ao manter uma programação voltada para artistas independentes e nomes que transitam entre diferentes linguagens da música brasileira contemporânea. Em uma região que muitas pessoas evitam frequentar, espaços como esse ajudam a construir outra narrativa sobre o centro: não a de um lugar idealizado, mas a de um território complexo, onde cultura, memória e vida urbana seguem coexistindo.
Enquanto boa parte da cidade encerrava a quarta-feira lembrando dos transtornos causados pelas condições climáticas, quem escolheu atravessar o centro encontrou uma cena que costuma passar despercebida. Entre ruas marcadas por contrastes, a música continuou ecoando. E talvez seja justamente essa permanência — discreta, insistente e coletiva — uma das maiores forças da vida cultural do centro de São Paulo.
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