The Blue Nowhere reúne death metal, progressivo e trechos de jazz se configurando com um dos trabalhos mais ecléticos do Between the Buried and Me até hoje.

O disco mais “eclético” da trajetória do Between the Buried and Me até hoje é o décimo segundo álbum de estúdio da banda e traz um catálogo de death metal, metal progressivo, trechos de jazz e muito mais. Apesar disso, o trabalho é bem acessível e mistura a técnica e a ousadia que sempre caracterizaram o grupo. Aqui, a banda convida o ouvinte a explorar um “hotel mental” chamado The Blue Nowhere, em que cada faixa é um quarto com uma atmosfera própria.

O álbum foi lançado em 12 de setembro de 2025 pela gravadora InsideOut Music e tem distribuição no Brasil pela Shinigami Records.

Esse salto em variedade sonora e de humor evidencia a disposição da banda para experimentar. Ainda assim, o DNA técnico permanece intacto: riffs complexos, mudanças abruptas de tempo e passagens instrumentais refinadas dão o tom geral. A produção privilegia clareza: mantém a crueza em momentos mais pesados e ao mesmo tempo permite que as camadas melódicas e atmosféricas se revelem com profundidade.

Abertura imprevisível e caminhos variados

“Things We Tell Ourselves in the Dark” inicia o álbum de forma inusitada e interessante: guitarras brilhantes, percussão leve e vocais limpos pintam uma sonoridade jazzy/funk, distante do que muitos associam ao Between the Buried and Me. Mesmo assim a transição para partes mais agressivas surpreende, trazendo de volta a assinatura pesada da banda. 

Em seguida, “God Terror” aposta em percussão eletrônica e passagens industriais, misturando vocais rasgados e guitarras distorcidas num clima que remete a uma versão metalcore mais experimental. A quebra brusca entre partes melódicas e agressivas deixa claro que a banda reutiliza seu caos organizado como matéria-prima.

“Absent Thereafter” reconstrói a identidade progressiva da banda com riffs técnicos e estruturas labirínticas, intercalando atmosferas etéreas com explosões de puro metal. Há até um trecho com influência de country/rockabilly, um dos momentos mais inesperados do disco. Esse contraste, no entanto, funciona dentro da lógica de diversidade que o álbum busca e dá um brilho inusitado à faixa. Depois disso, “Pause” e “Mirador Uncoil” atuam como interlúdios etéreos e curiosos, preparando o terreno para o segundo ato do disco. Entre essas duas faixas, ainda temos a cinematográfica “Door#3”, que conecta as duas músicas construindo uma ponte para a imaginação do ouvinte.

Quando chegamos a “Psychomanteum” e “Slow Paranoia”, somos imersos em composições longas e densas, onde a banda brinca com dissonâncias, ambiências sombrias, passagens jazz ou até circenses, e explosões de metal técnico. São faixas que exigem paciência e entrega: há momentos de brilho absoluto — solos elaborados, mudanças de ritmo inesperadas, contrastes dramáticos —, mas também trechos que podem parecer arrastados ou confusos para quem busca coesão imediata.

Na reta final, o álbum desacelera com “The Blue Nowhere” — faixa-título — e “Beautifully Human”, que exploram lados mais melódicos, acessíveis e reflexivos da banda. O clima jazzy, o uso de synths, a melodia mais direta e o groove mais suave criam uma sensação de calma contrastante com o turbilhão do início e do meio do disco.

Entre ambição e desorganização consciente

O grande mérito de The Blue Nowhere está justamente nessa capacidade de abraçar múltiplas facetas sem renegar o legado técnico-progressivo da banda. As variações de estilo mostram que Between the Buried and Me permanece inquieto e criativo. Por outro lado, essa mesma liberdade por vezes fragiliza a coesão do álbum. A ausência de um fio narrativo — recorrente em trabalhos anteriores da banda — dá ao disco um caráter mais fragmentado, em que cada faixa funciona como uma ilha isolada. Isso pode ser visto como defeito ou como virtude, dependendo do tipo de ouvinte.

Segundo o vocalista Tommy Rogers, a história do álbum se passa em um hotel chamado The Blue Nowhere. Mas, ao invés de corredores assombrados ou personagens atrás de cada porta,  o hotel reflete mais uma sensação. “São aqueles momentos em que você se sente sozinho no mundo e está refletindo, e nesse processo acaba descobrindo coisas novas sobre si mesmo e sobre seu lugar no mundo”, esclarece Rogers. “Existir em um espaço onde ninguém pode te encontrar, onde você está escondido de todas as formas de realidade, isso é The Blue Nowhere.”

Para quem procura passear por universos diferentes dentro de um mesmo álbum — do metal brutal à melodia suave, do jazz à cacofonia técnica — The Blue Nowhere entrega com ambição e personalidade. Para quem espera uma jornada contínua e conectada com a solidez estrutural dos melhores álbuns da banda, talvez o resultado pareça irregular. Ainda assim, mesmo nas falhas, existe o brilho de uma banda que se recusa a repetir fórmulas já gastas.

Em resumo, The Blue Nowhere gera fascínio e polêmica na medida certa. Ele representa tanto um passo corajoso rumo à experimentação quanto um espelho da dualidade da banda entre caos e precisão — e justamente por isso merece ser ouvido com olhos — e ouvidos — abertos.

Between the Buried and Me | The Blue Nowhere Faixas

1. Things We Tell Ourselves in the Dark

2. God Terror

3. Absent Thereafter

4. Pause

5. Door #3

6. Mirador Uncoil

7. Psychomanteum

8. Slow Paranoia

9. The Blue Nowhere

10. Beutifully Human

FORMAÇÃO

Tommy Giles Rogers Jr.: vocal, teclados

Paul Waggoner: guitarra

Dan Briggs: baixo, sintetizadores, teclados

Blake Richardson: bateria

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