Lançado no halloween, Don’t Go In The Forest, do Avatar, é sombrio, poético, cheio de camadas sonoras, visuais e com cara de ópera rock.
“Tempos estranhos pedem bandas estranhas” e Don’t Go In The Forest, lançado no Halloween de 2025, é a prova disso. O novo trabalho do quinteto sueco mergulha fundo na psique humana, explorando a relação entre medo, identidade e poder através de uma estética que mistura teatro, horror psicológico e metal moderno. Depois do sucesso de Dance Devil Dance (2023), o grupo liderado por Johannes Eckerström volta a equilibrar peso e ironia e em um dos álbuns mais ambiciosos de sua carreira.
A narrativa de Don’t Go In The Forest gira em torno da floresta como metáfora: um espaço simbólico de perdição e descoberta. É nela que o protagonista confronta suas próprias sombras e tabus, temas que o Avatar traduz com o vigor e a teatralidade que o tornaram inconfundível.
Sobre o trabalho, o vocalista Johannes Eckerström comentou: “Don’t Go In The Forest é um álbum repleto de coisas que nunca fizemos antes. São todas músicas e conceitos que nunca tínhamos sequer chegado perto de explorar até agora. A mente é selvagem e nos perdemos nas florestas mais escuras, repletas de memórias e fantasias. E pensamentos proibidos que precisam ser ditos.”

O chamado do circo proibido
O disco começa com “Tonight We Must Be Warriors”, um chamado à coragem. A música soa como um manifesto para os “freaks” que ousam enfrentar o desconhecido. Uma marcha de luzes e sombras que prepara o caminho para a travessia. Um conceito que se reflete na sonoridade cheia de flautas de pífano e bateria marcial que convoca o ouvinte para iniciar a sua jornada como guerreiro.
Em “In The Airwaves”, a sonoridade se distorce, reproduzindo o ruído interno de uma mente em colapso. É o momento em que o ouvinte percebe que já está dentro da floresta, guiado por ecos e interferências que lembram a fragilidade do controle. A faixa é bem mais densa, misturando todos os elementos característicos do Avatar: riffs pesados, solo envolvente, versos guturais e refrões melódicos pra cantar junto. Uma receita que funciona super bem ao vivo.
“Captain Goat” surge como figura central desse circo onírico: meio profeta, meio bobo, conduz o espetáculo com risos inquietantes, misturando insanidade e sabedoria em doses iguais. Aliás, vale conferir a representação dessa personagem no videoclipe, que está magnífico. Esta faixa é certamente uma das mais cativantes do álbum, pois ela consegue realmente carregar o ouvinte por essa jornada ao submundo com sua melodia contrastante: com cara de fuga e canção de ninar ao mesmo tempo.
A faixa-título, “Don’t Go In The Forest”, é o eixo emocional e conceitual do álbum. Seu tom sedutor e melódico transforma o aviso em tentação: quanto mais se diz “não entre”, mais irresistível é o convite. É o retrato perfeito da dualidade que define a obra: a atração pelo perigo, a necessidade de se perder para descobrir algo verdadeiro. Já a sonoridade é bem mais radiofônica e com uma leve aura oitentista, graças aos seus vocais em coro e refrão completamente chiclete. Mas, claro, com o toque sombrio na ponte ao final para dar o “toque Avatar” que faltava.
A ambiguidade se expande em “Death and Glitz”, em que a banda faz da decadência uma festa dourada, transformando o horror em espetáculo e a autodestruição em arte performática. Quando o single foi lançado, ele logo surpreendeu pela fusão de elementos sonoros, arranjos diversificados e o vocal super festivo (que é a cereja do bolo), mas sem perder o groove e o peso padrão.
“Abduction Song” mergulha ainda mais fundo no delírio, narrando o rapto simbólico da sanidade. A faixa surpreende por injetar uma velocidade até então não ouvida em Don’t Go In The Forest. Além disso, ela traz, novamente, camadas oitentistas que se mesclam ao groove e metal moderno do Avatar, surpreendendo a cada segundo!
Logo em seguida, “Howling at the Waves” oferece um instante de lucidez e melancolia, o uivo do artista diante do abismo, a vulnerabilidade escondida sob a pintura de palhaço. Então, se prepare para aquele momento introspectivo com essa balada que inicia com piano, bateria e um tom de lamento e reflexão. A faixa realmente adiciona uma nova faceta ao trabalho do Avatar, agregando um tipo de sentimento e dramaticidade que até então não tínhamos ouvido da parte deles. Essa vai ser aquela música pra cantar junto no show com a lanterna do celular acesa.

Nos minutos finais, “Dead and Gone Back Again” e “Take This Heart and Burn It” encenam o renascimento após a travessia. A primeira ressurge com a energia do metal mais puro, como se o circo inteiro despertasse de um transe; a segunda é catarse, purificação pelo fogo, libertação do que antes era medo. Prepare-se para faixas completamente teatrais, que contam sua história através do som e fazem o ouvinte imergir dentro delas. É quase uma ópera rock!
O encerramento com “Magic Lantern” é meio que um pós-sonho: uma lamparina tremeluzindo no fim da noite, deixando para trás apenas o eco distante da música e o perfume agridoce do espetáculo. Em meio a um riff inventivo, berros e uma atmosfera quase progressiva, essa faixa fecha o álbum com chave de ouro.
Os vídeos dão o tom da história
Visualmente, Don’t Go In The Forest é também uma experiência, pois cada vídeo reforça o caráter conceitual da obra, com direção artística que combina o grotesco e o poético, o cômico e o trágico.
E não é novidade que o Avatar sempre brilha em seus videoclipes. Mas os últimos lançados certamente são espetaculares. Destaque para “Captain Goat”, que – segundo a banda – “usa o motivo de Satanás e a jornada do espírito pelo submundo como uma meditação. É uma negociação com a dureza da existência e um encontro com a aceitação à medida que se navega pela escuridão implacável da vida”. E para o mais recente, da faixa-título “Don’t Go In The Forest”, que é um convite para ir além do comum e adentrar o estranho.
O conceito visual acompanha essa imersão total. Nos vídeos de “Tonight We Must Be Warriors” e “Death and Glitz”, o Avatar encena o que a música apenas sugere: guerreiros mascarados enfrentando demônios interiores. A banda transforma o palco num santuário do estranho, invertendo a lógica do circo tradicional. Desta vez, não é o circo que chega à cidade, é a cidade que se rende e vai até o circo, atraída por algo que não entende, mas precisa sentir.
Don’t Go In The Forest e suas infinitas camadas
Em Don’t Go In The Forest, o Avatar não apenas entrega um álbum: cria uma experiência sensorial e simbólica. É uma viagem à floresta interior, um mergulho no inconsciente coletivo e uma celebração da arte como desafio à normalidade. A advertência do título é clara, mas inevitável: não vá à floresta. Mas, mesmo assim, você vai.
Sonoramente, o Avatar atingiu com louvor seu objetivo de não fazer mais um álbum. Eles inovaram de ponta a ponta, incluindo elementos de décadas diversas, arranjos psicodélicos e muita teatralidade para contar uma história nunca antes ouvida pelos fãs. E o melhor de tudo é que, apesar de tanta novidade, a banda não se perde em sua essência groove, moderna e pesada.
São tantas camadas sonoras, visuais e conceituais, que nem dá pra mencionar tudo numa única resenha. Afinal, as fotos de divulgação e a capa também são um capítulo à parte. Mas, no geral, deguste o álbum e aproveite todas as suas sensações. Você não vai se arrepender. Don’t Go In The Forest é intenso, criativo, imersivo e um hino do circo de horrores para esse halloween. Com certeza, 10/10.

Faixas Don’t Go In The Forest | Avatar
1 Tonight We Must Be Warriors
2 In The Airwaves
3 Captain Goat
4 Don’t Go In The Forest
5 Death And Glitz
6 Abduction Song
7 Howling At The Waves
8 Dead And Gone Back Again
9 Take This Heart And Burn It
10 Magic Lantern

Avatar é:
Johannes Eckerström – Vocal
Jonas Jarlsby – Guitarra
Tim Öhrström – Guitarra
Henrik Sandelin – Baixo
John Alfredsson – Bateria
Avatar online
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