Em Unself, Conjurer une peso e vulnerabilidade em um álbum que expõe lutas por identidade, neurodivergência e espaço para existir.
Com lançamento marcado para 24 de outubro de 2025 pela Nuclear Blast, Unself marca um novo e poderoso capítulo na trajetória da banda britânica Conjurer. Em seu terceiro álbum de estúdio, o grupo não apenas expande os limites do sludge e post-metal, como mergulha fundo em questões de identidade e pertencimento.
Dani Nightingale, vocalista e letrista da banda, compartilhou recentemente como o diagnóstico tardio de autismo e o processo de afirmação de sua identidade de gênero não binária influenciaram diretamente as letras e a atmosfera do álbum. O resultado é um trabalho que surpreende não apenas pelo peso e densidade sonora, mas por sua vulnerabilidade emocional. Unself incorpora elementos de folk e passagens acústicas, amplia os contrastes entre brutalidade e silêncio, e mostra a banda Conjurer mais introspectiva e corajosa do que nunca.

Unself: brutalidade e nuance
Desde os primeiros acordes da faixa de abertura, que também dá nome ao disco, a proposta está clara: “Unself” não é apenas sobre peso ou técnica, mas sobre desapego, desconstrução e deslocamento. Temas que não são abstratos aqui, mas visceralmente encarnados. A introdução com guitarras limpas logo é tragada por uma parede de distorção, antecipando a jornada que se seguirá: um percurso sonoro e existencial de confronto com o próprio eu. A letra — que se apropria da frase “This world is not my home, I’m just passing through” de um hino gospel — inaugura o tema que atravessa todo o álbum: a busca por pertencimento.
O que se destaca em Unself é o domínio das dinâmicas. Conjurer não tem medo do silêncio, nem da delicadeza, nem da repetição. A segunda faixa, “All Apart”, exemplifica isso ao alternar vocais limpos e guturais, guitarras acústicas e riffs sufocantes, com transições que nunca soam artificiais. A fluidez com que esses contrastes acontecem demonstra uma banda em controle absoluto de sua linguagem.
Longe da simples brutalidade que marcou momentos anteriores da carreira do Conjurer, aqui há espaço para nuance e é nessa nuance que Unself cresce.
“There Is No Warmth” aprofunda esse mergulho na angústia com riffs espessos e arrastados, vocais que quase implodem de tensão e uma batida ritualística que evoca tanto doom quanto tribalismo primitivo. É uma faixa que soa como se estivesse carregando o peso de um corpo inteiro ou de uma vida. E, novamente, a banda se utiliza com maestria da alternância entre vocais suaves e berros para criar essa sensação.
Já em “The Searing Glow”, a Conjurer se permite flertar com o black metal: guitarras em tremolo, velocidade incisiva e um sentimento de combustão interna. A “luz abrasadora” do título é tanto metáfora quanto descrição precisa do som que ouvimos. A faixa é intensa e sufocante do início ao fim.
O centro emocional do disco, no entanto, parece residir em faixas como “A Plea” e “Let Us Live”. A primeira funciona como uma pausa, quase um pedido de descanso. Com violões acústicos, vozes faladas em espanhol comentando sobre perseguição a atentado contra a vida criam uma atmosfera que mais sugere do que afirma. É um momento de introspecção e entrega ao cansaço de sobreviver.
Já “Let Us Live” é um grito coletivo: escrita a partir de experiências de neurodivergência e identidades marginalizadas, a faixa se transforma em hino político e pessoal. Trechos da fala da ativista trans Carla Antonelli ampliam o alcance da mensagem. Aqui, o sludge encontra o manifesto, e o resultado é de uma honestidade desarmante. O que antes era um apelo e agora é uma demanda urgente em meio à opressão contínua e crescente das vidas trans.
Em “Hang Them In Your Head”, a banda retoma o peso frontal, com uma composição agressiva e direta que ataca estruturas de poder e opressão com fúria concentrada. É o single mais imediato do álbum, mas também um dos mais politizados. Já “Foreclosure” desacelera novamente, oferecendo uma visão mais despojada e minimalista, em que o vazio sonoro amplia o impacto da letra. E, mais uma vez, Conjurer consegue expressar um sentimento de exílio interno, de identidade confiscada.
O encerramento com “This World Is Not My Home” traz o álbum de volta ao seu ponto de partida, mas com uma aura mais calma. A frase-título volta, agora em tom de aceitação. O mundo pode não ser lar, mas talvez o corpo — ou o som — possa ser.

- Pré-venda: https://conjurer.bfan.link/unself
Faixas Unself — Conjurer
1. Unself
2. All Apart
3. There Is No Warmth
4. The Searing Glow
5. A Plea
6. Let Us Live
7. Hang Them In Your Head
8. Foreclosure
9. This World Is Not My Home

Brutal, sensível e sobre espaço
Apesar de Unself trazer um forte manifesto em defesa da vida de pessoas trans, Dani Nightingale revelou que o que mais impactou a criação do álbum foi o diagnóstico tardio de autismo, aos 31 anos. Em entrevista ao canal O Jardim Sonoro, contou que se reconhecer como pessoa não binária foi como nomear algo que sempre esteve ali. Já o autismo veio com mais força, trazendo à tona sentimentos escondidos, difíceis de lidar, e uma nova forma de enxergar sua própria existência.
Essa revelação atravessa todo o disco e encontra expressão tanto nos berros quanto nos silêncios. Conhecida por seu som denso e barulhento, a banda Conjurer surpreende ao incorporar passagens acústicas e influências do folk, que surgem como respiros fundamentais na paisagem sonora de Unself. Dani comentou que essas escolhas visavam justamente criar um espaço que antes não existia na música da banda: espaço para a vulnerabilidade, a introspecção e o cuidado.
- Assista a entrevista completa de Dani Nightingale no nosso canal do YouTube.
Produzido por Joe Clayton, o álbum surpreende por seu rigoroso trabalho técnico, conseguindo revelar todos os sentimentos submersos nas músicas. Assim, mesmo nas passagens mais densas, é possível distinguir cada instrumento, cada suspiro entre os gritos. E isso é essencial, porque Unself é, acima de tudo, sobre espaço: o espaço que se tem, o espaço que falta, o espaço que se ocupa quando se aprende a existir em seus próprios termos.
Nesse equilíbrio entre brutalidade e humanidade, Unself se revela como uma obra completa. Um álbum que traduz com força e sensibilidade a dor de não se encaixar — algo que atravessa a experiência de pessoas autistas e trans —, mas também a energia para seguir em frente. Uma obra que merece ser ouvida não apenas com atenção, mas com o coração aberto.

Conjurer é:
Brady Deeprose | guitarras, vocais
Dani Nightingale | guitarras, vocais
Conor Marshall | baixo
Noah See | bateria
Conjurer online:
https://www.facebook.com/conjureruk
https://www.instagram.com/conjureruk





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