Na sexta, 26 de setembro, The Sisters of Mercy transformou o Tokio Marine Hall em uma cripta sonora com seu ritual gótico denso e soturno.
A temperatura que chegou aos 10 °C e o céu encoberto pareciam anunciar o que viria na noite do dia 26 de setembro em São Paulo: um mergulho na escuridão sonora do The Sisters of Mercy, banda ícone do pós-punk oitentista, que retornou ao Brasil com uma apresentação impecável e estética fiel às raízes.
Com abertura da 3 Pipe Problem, a noite começou animada, mas logo mergulhou em névoa e luzes coloridas chapadas. Na pista do Tokio Marine Hall, mal se via o palco, e ver os músicos parecia até irrelevante. Afinal, a fumaça que tomava conta de tudo ditava a estética de pista de dança subterrânea onde ninguém se olha nos olhos, apenas sente a vibração sonora.

Clássicos preservados
Sem acenos ao público e sem qualquer interação, assim foi a postura da banda, tão fria quanto o clima da noite. E isso, para os fãs, era o ideal. Andrew Eldritch surgiu como uma silhueta em meio à fumaça, e sua voz, incrivelmente preservada, flutuava firme sobre bases eletrônicas e guitarras cortantes, como nos clássicos de estúdio.
E o show veio mesmo recheado de clássicos atemporais da extensa carreira do The Sisters of Mercy. A abertura trouxe “Don’t Drive on Ice” e, logo na sequência, faixas como “Alice”, “Ribbons” e “I Was Wrong” criaram o clima de viagem interior. Cada música era executada com precisão quase clínica, mas com impacto emocional de pista de dança às 3 da manhã. “Dominion / Mother Russia” elevou a temperatura momentaneamente, enquanto “More” e “Lucretia my Reflection” fizeram os corpos se moverem no meio da penumbra.
O encerramento foi previsível, no melhor sentido da palavra. Seguindo o setlist já habitual da banda nos shows, sem muita surpresa. Assim, “Temple of Love” fez o chão vibrar com sua batida quase techno, e o bis com “This Corrosion” transformou o ambiente em uma celebração soturna, em que todos cantavam como se estivessem na última festa antes do fim do mundo.

Estética é parte da experiência
Mais do que um show, o que o The Sisters of Mercy ofereceu foi uma experiência estética: um retorno ao universo das boates escuras, onde a performance é mínima, o clima é denso e a entrega vem pela atmosfera.
Para quem esperava calor humano ou ver os ídolos de perto, talvez tenha sido decepcionante. Mas para os que foram ali para reviver (ou descobrir) o poder hipnótico da banda, foi exatamente o que se queria: uma noite fria, estridente e sombria, onde a luz era só o suficiente para não tropeçar; e a música, sóbria e implacável, guiava cada passo na pista.
Algo coerente com a visão da banda de sentir o som e não ter pressa criativa. Pois, como Ben Christo (guitarrista) recentemente comentou em entrevista ao site Filter México: “Alguns fãs querem ouvir um disco novo, outros acham melhor manter apenas os clássicos. Para nós, o palco é o lugar onde tudo acontece. É onde as músicas respiram”.
E foi exatamente isso que o Sisters entregou em São Paulo: um repertório que não precisa ser reinventado, porque ainda pulsa. E o público o vive em tempo real, pois sentir o som é mais urgente do que atualizá-lo. Faz parte do mistério.

Três cachimbos antes do show
Coube à banda de abertura, 3 Pipe Problem, a missão de aquecer o público antes do The Sisters of Mercy, e eles o fizeram com precisão e personalidade. Com um som, pulsante e carregado de nuances contemporâneas do pós-punk, eles entregaram uma performance sonoramente agradável que cativou o público. Se The Sisters of Mercy conduziu o público por uma viagem densa e ritualística, 3 Pipe Problem chegou como um sopro mais direto e visceral da cena gótica atual, trazendo movimentação e energia à pista escura.
Com uma estética sonora bem definida, eles transformaram o set em uma afirmação de identidade. Não com pirotecnia ou excessos, mas com entrega e coerência. E o nome da banda, claro, não é escolhido ao acaso: inspirado na expressão de Sherlock Holmes, que recorria a três cachimbos para resolver os casos mais difíceis, o trio parece aplicar o mesmo princípio à música. Nisso, eles mergulham fundo para decifrar a atmosfera certa do público e entregar sua própria leitura das sombras.
Setlist The Sisters of Mercy | 26 de setembro – Tokio Marine Hall | São Paulo
- Don’t Drive on Ice
- Crash and Burn
- Ribbons
- Doctor Jeep / Detonation Boulevard
- More
- I Will Call You
- Alice
- Dominion / Mother Russia
- Summer
- Giving Ground (The Sisterhood cover)
- Marian
- But Genevieve
- Eyes of Caligula
- Here
- Quantum Baby
- On the Beach
- When I’m on Fire
- Temple of Love
Bis:
- Never Land (A Fragment)
- Lucretia My Reflection
- This Corrosion
Veja mais fotos do show:














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