Nesta entrevista, a banda Sunset Collectors mostra como transforma vivências e causas sociais em hardcore cheio de atitude e empatia. 

Há algo de profundamente simbólico no momento em que o sol toca o horizonte. Para alguns, é apenas o fim do dia. Para outros, como os integrantes da banda Sunset Collectors, é um lembrete diário de que sempre há um novo começo possível. É nesse encontro entre beleza, recomeço e resistência que nasce a identidade da banda, que transforma vivências pessoais em música. 

Em meio à energia do punk e à reflexão do hardcore melódico, a banda se destaca por dar voz a temas sensíveis, como a neurodiversidade, e por transformar vivências pessoais — sejam elas nas ruas de Osasco ou nas trocas entre amigos — em música que conecta, emociona e instiga.

Em entrevista ao Jardim Sonoro, a Sunset Collectors falou sobre o surgimento da banda, a busca por identidade, a diversidade de influências, e o compromisso com temas sociais. A seguir, você lê a conversa completa.

Música, atitude e conexão

JS: Vocês misturam vivências de cultura de rua, amizade e resistência em suas letras. Qual foi o primeiro momento em que sentiram que a banda tinha realmente encontrado sua voz?

SC: Acreditamos que ainda estamos moldando nossa voz. Esse processo exige muito suor, dedicação e entrega, desde a construção das nossas características melódicas e timbres, até a presença de palco e a postura que carregamos fora dele. Tudo isso compõe o que entendemos como identidade. Mas o marco inicial para a materialização da nossa voz aconteceu com o lançamento do nosso primeiro single: “Válvula de Escape”. A forma como as pessoas reagiram à música foi um reflexo poderoso de que havíamos dado o primeiro passo real nessa construção.

Ali percebemos que a nossa voz estava nascendo, a partir da soma de todos esses elementos: música, atitude e conexão com quem nos escuta.

JS: As influências de cada integrante são bem variadas, desde Bob Marley até Killswitch Engage. Como essas diferenças musicais se transformam em um resultado coeso no estúdio?

SC: As nossas diferenças musicais não são obstáculos, mas sim combustível. Cada integrante traz consigo uma bagagem própria, do reggae passando pelo metal, blues ao hardcore mais melódico ou pesado e nós enxergamos isso como um leque de possibilidades criativas. No estúdio, essa diversidade se traduz em um processo de construção coletiva: cada ideia é válida, cada detalhe pode contribuir para o resultado final.

O que garante a coesão é justamente a forma como filtramos essas influências para servir à música. Sejam harmonias, melodias, arranjos ou até mensagens que absorvemos de outros artistas, tudo passa pelo nosso filtro coletivo e ganha uma nova roupagem. O resultado é um som que carrega o início da construção da identidade da Sunset Collectors, mas que também guarda em si fragmentos de tudo aquilo que nos inspira.

Foto: Henrique Lima

JS: Se pudessem descrever a missão da Sunset Collectors em uma frase, qual seria?

SC: Transformar nossas histórias e amizades em música que inspire resistência, união e dias melhores.

JS: Poderia comentar sobre o nome da banda? Qual a história / significado?

SC: O nome Sunset Collectors nasceu de algo muito pessoal, todos nós sempre tivemos uma forte conexão com o pôr do sol. O momento em que o sol se põe carrega um grande significado, ele marca não só o fim de um ciclo, mas também anuncia a esperança de um novo dia, de novas possibilidades por vir. Percebemos, inclusive, que em nossas próprias galerias de celular haviam inúmeras fotos de pores do sol, desde registros feitos em Osasco, até imagens captadas na Califórnia.

Apesar da distância, todas essas fotos traziam o mesmo simbolismo: a certeza de que o sol sempre volta, renovando forças e abrindo espaço para recomeços.

Foi dessa ideia que veio o nome da banda, como um lembrete constante de esperança e renascimento.

Músicas transformam incômodo em resistência

JS: “Válvula de Escape” fala sobre conformismo e resistência coletiva. Essa faixa é quase um manifesto da banda?

SC: Sim, podemos dizer que “Válvula de Escape” tem esse espírito de manifesto. A letra traduz nossa insatisfação contra um sistema que oprime e limita as pessoas, mas ao mesmo tempo aponta para a união e a resistência coletiva como saída. É uma forma de conduzir a revolta em energia criativa, reforçando que, através da música e da amizade, encontramos forças para questionar, resistir e propor mudanças.

JS: Em “Contrariando Sua Vontade”, vocês abordam a luta contra padrões impostos. Essa música nasceu de vivências pessoais do grupo?

SC: Com certeza. Todos nós já enfrentamos esse tipo de influência negativa de falsos líderes, seja no ambiente de trabalho, nas religiões, na política com governantes que não representam de fato o povo, ou através de coachs e influencers que, nas redes sociais, exercem uma pressão hipócrita e constante para ditar como devemos agir e viver.

No fim, todos seguem a mesma lógica: o interesse em se promover às custas dos outros, oferecendo como isca a falsa promessa da prosperidade sustentada em uma meritocracia inexistente, alimentando a alienação e mantendo as pessoas presas a uma ilusão. “Contrariando Sua Vontade” nasceu justamente de conversas entre nós sobre essas vivências e da percepção de como essa realidade sufoca tantas pessoas ao nosso redor. A música é a nossa forma de transformar esse incômodo em resistência, reafirmando que existe outro caminho: o de seguir a sua própria verdade, mesmo que isso signifique enfrentar obstáculos ou caminhar sozinho.

JS: “Para Sempre Juntos” toca em um tema sensível e necessário: o autismo. Que experiências motivaram essa música? Há intenção de este tema ser uma temática frequente para a banda?

SC: A inspiração veio da convivência direta com pais atípicos, familiares, amigos e pessoas próximas que têm filhos ou sobrinhos diagnosticados com TEA (Transtorno do Espectro Autista) em seus diversos níveis. Além dessa vivência, mergulhamos em informações e estudos para abordar o tema com o máximo de respeito e sensibilidade. A música nasceu como uma homenagem a essas pessoas e também como um chamado à empatia, à inclusão e à luta por mais direitos, contra preconceitos. Quanto a continuidade, não enxergamos esse assunto como algo “pontual”, mas sim como um compromisso: sempre que possível, queremos dar voz a causas que consideramos essenciais para a construção de uma sociedade mais justa.

JS: O EP previsto para o segundo semestre de 2025 contará com seis faixas inéditas. O que o público pode esperar em termos de sonoridade e temática?

SC: Ao longo da construção deste projeto, alguns ajustes foram necessários e, por questões estratégicas, o lançamento do nosso primeiro EP ficou definido para o primeiro semestre de 2026. O público pode esperar um trabalho intenso, honesto e cheio de energia. Na sonoridade, seguimos mesclando a agressividade do hardcore com a melodia do punk rock, explorando diferentes atmosferas que vão do grito de protesto à reflexão mais pessoal.

Em relação a temática, o EP percorre assuntos como críticas sociais, resistência, autoconhecimento, amizade, positividade e identidade. São letras que refletem nossas vivências e percepções do mundo, mas que também conversam diretamente com a realidade de quem nos escuta. Queremos que cada faixa seja um ponto de conexão, mostrando que ninguém está sozinho em suas lutas. Este trabalho representa o fechamento de um primeiro ciclo da Sunset Collectors e traduz com extrema precisão a nossa essência.

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