Leko Soares conta sobre os desafios do Lothlöryen e como a banda promete reacender sua história com  “…of Bards and Madmen [Reimagined]”.

O Lothlöryen, um dos nomes mais respeitados do power/folk metal brasileiro, está de volta. Após anos de silêncio, a banda anuncia o lançamento de “…of Bards and Madmen [Reimagined]”, uma reinterpretação ambiciosa de seu álbum de estreia, originalmente lançado em 2005. A nova versão chega no dia 12 de setembro de 2025, trazendo não apenas um som mais moderno, mas também uma narrativa expandida e profundamente pessoal.

Nesta matéria especial, você confere detalhes do retorno da banda, os bastidores da regravação e os conceitos por trás do álbum, em uma entrevista com Leko Soares, guitarrista e membro fundador do grupo. Além disso, trazemos também uma resenha completa do novo trabalho, que mostra como o Lothlöryen uniu maturidade musical, storytelling e atmosfera cinematográfica para dar vida à saga do Bardo Negro e ao próprio renascimento da banda.

Retorno e nova roupagem para um clássico cult

Após um hiato que parecia definitivo, o Lothlöryen ressurge com um projeto que mira no passado para ressignificar o presente. “…of Bards and Madmen [Reimagined]” é mais do que uma regravação, é uma reconstrução completa do álbum de estreia da banda, lançado de forma independente em 2005, e que desde então se tornou um item cult no cenário underground.

Segundo Leko Soares, a ideia nasceu da demanda dos fãs e do desejo da banda de dar a essas composições uma nova vida:

“O ‘…of Bards and Madmen’ virou um disco cult no underground. As cópias físicas sumiram e chegam a custar até 100 reais. Muita gente pedia que ele estivesse nas plataformas digitais. Com o convite do Leo [Ghigiarelli], decidimos dar um passo além: regravar tudo com a qualidade e liberdade que não tínhamos na época.”

Produzido por Leo Ghigiarelli — que também integra a nova formação da banda como baixista —, o álbum recebeu arranjos atualizados, timbres modernos e uma produção detalhista, sem perder o espírito épico que definiu o som original.

Renascimento e um mergulho na loucura

O novo álbum marca não apenas um reencontro com o passado musical da banda, mas também com sua própria trajetória. Após o lançamento da coletânea Hourglass: 15 Raving Years em 2017, o grupo enfrentou seu colapso.

“A banda se esfacelou em 2018. Nosso último show, ‘Lothlöryen & Friends’, foi praticamente um réquiem”, relembra Leko. Tentativas de retorno ocorreram em 2021 e 2022, mas apenas em 2024 um convite inusitado reacendeu a vontade de recomeçar.

E o recomeço veio através de um retorno às origens — mas sob uma nova perspectiva. O personagem central da obra, o “Bardo Negro”, vive uma jornada de autoconhecimento, atravessando dimensões entre realidade e fantasia, razão e insanidade.

“A narrativa acompanha um personagem que havia se frustrado no mundo real e é levado para outra dimensão. Lá, ele precisa enfrentar seus dilemas e lutar para retomar sua crença no poder da música e da fantasia. O álbum é ao mesmo tempo positivo e obscuro”, explica Leko.

A simbologia do Bardo Negro vai além da ficção. Ela reflete a própria travessia do Lothlöryen nesses últimos anos — entre fim e renascimento, dúvida e convicção. Essa conexão fica clara, por exemplo, na faixa “There and Back Again”, originalmente lançada em 2003 e agora reinterpretada.

“Ela representa exatamente o paralelo entre a saga do personagem e a própria jornada da banda. Usamos essa matéria-prima nostálgica como fonte para criar algo novo. Como dizia Heráclito: ‘Nenhum homem se banha duas vezes no mesmo rio…’”, completa o guitarrista.

HQs, orquestrações e a estética cinematográfica

Expandindo sua proposta artística, a banda também mergulhou no universo dos quadrinhos. Uma HQ lançada recentemente narra o segundo capítulo da saga do Bardo Negro, ambientado em “Morialiy” — uma dimensão onde razão e insanidade se misturam. A ideia é que cada faixa do álbum ganhe uma edição própria, culminando em um livro ilustrado completo.

“A HQ mostra um momento crucial do personagem, em que ele precisa decidir entre retornar ao mundo real ou seguir explorando o desconhecido. Isso espelha o dilema da banda em continuar ou desistir. Queremos lançar uma HQ para cada faixa”, diz Leko.

O aspecto cinematográfico da obra também foi cuidadosamente planejado. Segundo o músico, três elementos foram fundamentais: o arco narrativo coeso, a produção detalhada de Ghigiarelli e as orquestrações conduzidas por Lucas Bello.

“Com certeza elas são um diferencial enorme em relação ao álbum original. Queríamos garantir que o ouvinte mergulhasse de verdade nessa atmosfera.”

Sobre a transposição ao palco, a banda ainda avalia como levar esse universo aos shows ao vivo:

“Estamos conversando sobre como — e se — vamos apresentar a obra completa ao público. É uma decisão importante.”

O folk metal no Brasil

A trajetória do Lothlöryen também lança luz sobre os desafios de se fazer folk metal no Brasil. A falta de estrutura, de público consumidor de música autoral e a escassez de circuitos profissionais são entraves antigos, mas que parecem ter se agravado.

“O cenário virou de cabeça pra baixo. Antes, eventos com bandas autorais reuniam centenas de pessoas. Hoje, a cena está dominada por bandas cover, e isso está corroendo a cena underground de dentro pra fora”, critica Leko, de forma direta.

E ele vai além ao comentar que a dificuldade não se restringe ao estilo do folk metal

“O público consumidor de Metal autoral underground ainda é de um tamanho medíocre em comparação com mercados como o europeu e asiático, o que gera outro grande problema que é o pouco retorno financeiro real para financiar as bandas e suas produções”. 

O que esperar de “…of Bards and Madmen [Reimagined]”

O novo trabalho do Lothlöryen não é apenas uma homenagem ao passado. “…of Bards and Madmen [Reimagined]” é uma obra densa, emocional e ricamente produzida, que convida o ouvinte a mergulhar na jornada do Bardo Negro, entre sombras internas e paisagens fantásticas.

Logo na introdução, “Welvcome”, somos transportados para o cenário de uma taverna mágica. É um convite sutil e envolvente, que logo cede lugar à intensidade de “Bard’s Alliance”, em que a energia do power/folk metal se mostra em sua forma mais refinada.

O disco mantém o equilíbrio entre o folk e o power metal, mas abraça outros gêneros com naturalidade — como o progressivo e o heavy metal — tudo isso reforçado por orquestrações marcantes e arranjos acústicos que apoiam o aspecto narrativo.

Namarie” é um bom exemplo dessa sensibilidade folk, com violões que nos transportam para paisagens naturais, enquanto “There and Back Again” reúne guitarras vibrantes, vocais teatrais, e orquestrações que se entrelaçam perfeitamente com a base rítmica, tudo culminando em um solo emocionalmente poderoso.

A interpretação vocal de Leko Soares é um ponto alto: intensa, teatral e carregada de emoção. Em “Ruins of Fantasy”, ele parece literalmente nos contar uma história; já em “Someday”, sua performance é mais contida, mas igualmente envolvente. Participações especiais como Raphael Dantas (“There and Back Again”) e Shoujy (“Another Tale”) enriquecem a experiência com diálogos e nuances que ampliam a narrativa.

Os elementos sonoros — desde o som de fogo queimando até camadas de ambientação — completam a atmosfera cinematográfica do disco. “Elfic”, talvez, seja a faixa que melhor sintetiza o espírito do álbum: imersiva, delicada e grandiosa.

Musicalmente, é difícil rotular o disco. Ele trafega entre estilos com fluidez e coerência, entregando uma obra rica, coesa e emocionalmente carregada. Ao mesmo tempo épico e introspectivo, o álbum cumpre com maestria seu papel de revisitar o passado sem se prender a ele.

“…of Bards and Madmen [Reimagined]” é, em última análise, um tributo à jornada — artística, emocional e existencial — de uma banda que se recusou a desaparecer. E que agora volta mais forte, mais madura e pronta para contar (novamente) sua história.

Tracklist – “…of Bards and Madmen [Reimagined]”

  • Welcome
  • Bard’s Alliance
  • Moriality
  • Another Tale
  • The Dark Flames (of Madness’ Queen)
  • Someday
  • Ruins of Fantasy
  • Elfic
  • There and Back Again
  • Namärie
Mais sobre Lothlöryen 

Formado em 2002, o Lothlöryen consolidou-se como um dos principais nomes do Heavy/Folk Metal brasileiro. Com cinco álbuns lançados, a banda construiu uma trajetória marcada por lançamentos bem recebidos — desde a demo Thousand Ways to the Same Land (2003) e o debut …of Bards and Madmen (2005), até Some Ways Back no More (2008), Raving Souls Society (2012) e Principles of a Past Tomorrow (2015). 

Tocou ao lado de ícones como Sepultura, Angra, Korpiklaani e Symphony X, excursionou pelo Brasil e Europa, e se destacou pela busca de um som único, batizado de “Lothlöryen Metal”.

Após um hiato iniciado em 2018, retorna em 2025 com …0f Bards and Madmen — Reimagined, celebrando 20 anos do álbum de estreia.

Formação

Daniel Felipe – Vocais 

Leo Ghigiarelli – Baixo

Leko Soares – Guitarra / Vocais 

Lucas Bello – Orquestrações / Vocais

Assessoria: TRM Press

Lothlöryen online

https://www.youtube.com/lothloryen

https://www.facebook.com/lothloryen

https://www.instagram.com/lothloryenofficial

Leave a Reply

Trending

Discover more from O Jardim Sonoro

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading