Armahda fala sobre episódios históricos brasileiros, mesclando o peso do metal com influências da música nacional e letras em diferentes idiomas.

A banda Armahda constrói sua identidade com base em fatos históricos do Brasil, aliando o rigor na pesquisa histórica e a liberdade criativa. O grupo apresenta músicas que vão de guerras de independência à formação de países vizinhos ao Brasil, usando o heavy metal como ferramenta para narrar e provocar reflexão sobre o passado.

As composições, em sua maioria em inglês, também exploram o português e até o espanhol, dependendo da temática abordada. Além disso, o Armahda combina instrumentos e elementos da música brasileira aos arranjos pesados do metal, criando uma sonoridade única. Nesta entrevista, os integrantes Renato Domingos e Maurício Guimarães falam sobre o processo de composição, a escolha de idiomas, colaborações especiais, e os planos para levar suas histórias para além da música.

JS: A banda foca na história do Brasil, mas canta a maior parte do tempo em inglês. A que se deve essa escolha?
Renato Domingos: Costumamos dizer que é um processo natural. Como apreciadores de heavy metal, estamos acostumados a ouvir músicas em inglês e portanto nos parece mais confortável compor desse jeito, nessa sonoridade. Mas gostamos de escrever em português; é algo que vem ganhando cada vez mais espaço nas composições, principalmente no novo álbum que está por vir.
Maurício Guimarães: Somos total flex. Pela mensagem, pela música.

JS: Ao mesmo tempo, surgem também composições completamente em português como “Paiol em chamas”. Como vocês decidem qual língua faz mais sentido para cada composição?

Renato Domingos: Não há ‘regras’. Podemos escrever em inglês ou português ou, eventualmente, em até outra língua que faça sentido para o conceito que abordamos: A História do Brasil. Por exemplo, na música “Last Farewell” (sobre o exílio de Dom Pedro II) temos inglês e português. Na nova música “Silver Tears” temos inglês e espanhol, que está relacionada diretamente ao tema que abordamos: o surgimento do Uruguai como nação após a Guerra da Cisplatina.


JS: Qual a fonte de inspiração lírica de vocês? De onde surgem as ideias para as composições?

Renato Domingos: Também não há ‘regras’ rs. Pode vir de um livro, um filme, uma curiosidade ou um documentário. Muitas vezes procuramos um tema que não havíamos abordado anteriormente na timeline da História do Brasil. E em outras vezes, vem de sugestões de quem acompanha a banda.

Maurício Guimarães: o que importa é ser verdade Histórica.

JS: Os arranjos das músicas também carregam parte das histórias contadas, como podemos ouvir especialmente em “Canudos”, que agrega violas e sonoridade nordestina. A pesquisa sonora vem junto com a histórica? Como funciona essa parte da construção musical de vocês?

Renato Domingos: Sim, vem junto, mas não necessariamente buscamos uma sonoridade que a acompanha. Alguns temas, como a “Canudos” que você citou, são mais fáceis de atrelar uma sonoridade / textura musical ao tema. E em outras não é tão fácil assim e as referências podem até vir de outros estilos e artistas. De qualquer maneira, o Armahda procura ser objetivo nas letras, não deixando brechas para outras interpretações que não sejam o momento da história escolhido.

Maurício Guimarães: Raul Seixas nos ensinou que música baiana com rock é bom demais.

JS: Ainda sobre o tema sonoridade, o estilo quase épico de vocês também ajuda a contar essas histórias. Quais são as principais referências musicais que agregam e ajudam a construir o seu trabalho?

Renato Domingos: Podem vir de qualquer lugar. O Armahda é uma banda de heavy metal e é natural que a maior parte dessas referências venham de bandas do estilo com ênfase naquelas que abordam temas históricos. É importante citar também que música folclóricas, popular brasileira e etc. dão suporte musical para a temática; podem vir em arranjos evidentes (acústicos / percussivos / instrumentos brasileiros) ou misturados com guitarras, distorção etc.

Maurício Guimarães: Gostamos de tudo que é metal bom e também de música brasuca.

JS: A música “Quitéria” conta com a participação da Fernanda Lira. Como e por qual motivo esse feat aconteceu? Qual a ideia em trazer especificamente a Fernanda?

Renato Domingos: Anos atrás pensamos em escrever essa música sobre Maria Quitéria –  a grande heroína das guerras de independência do Brasil, que aconteceram principalmente na Bahia. Logo após a tomada de Salvador em 1823, Quitéria foi condecorada por Dom Pedro I e posteriormente reconhecida como a primeira mulher a integrar as Forças Armadas Brasileira. 

A escolha da Fernanda Lira foi justamente isso: queríamos uma pessoa que representasse as mulheres e o formato heavy metal o qual a música está formatada. No refrão, ela canta em 1ª pessoa, dando voz à própria Quitéria.

Outro fato curioso é que a primeira entrevista a qual o Armahda participou foi para o Programa Heavy Nation da Rádio UOL, apresentado, na época, pela Fernanda Lira e pelo Júlio Feriato.  

JS: A historiadora Leila Pinto escreveu uma tese sobre as músicas de vocês. Como isso aconteceu? Vocês já se conheciam? Conte essa história.

Renato Domingos: Não, não nos conhecíamos antes. Na verdade, a Leila já acompanhava o trabalho da banda nos últimos anos.

Maurício Guimarães: Foi uma linda surpresa ler sua tese e uma honra. Espero que ela ouça o álbum novo. Muito obrigado, Leila.

Renato Domingos: Esse foi um trabalho de conclusão de curso de História para a Universidade de Passo Fundo e nele ela apresenta a banda dentro do cenário do metal nacional e descreve 8 de nossas músicas com profundidade no tema de cada uma delas. Todo conteúdo tem embasamento bibliográfico com objetivo de enriquecer o entendimento da sociedade sobre seu próprio passado e identidade. Ela fez um trabalho incrível!

JS: Aliás, qual o intuito de vocês em focar na história do Brasil em suas músicas? E como os ouvintes podem fazer para se aprofundar nas letras e temáticas da banda?

Renato Domingos: Assim como na primeira pergunta, aconteceu de forma simples e natural. Sempre curtimos bandas, principalmente europeias, que abordavam temas históricos / folclóricos de seus países. Portanto, além de sermos brasileiros, percebemos que nossa história é rica e muitos episódios são de pouco conhecimento do próprio povo. Temos uma infinidade de histórias e acontecimentos que não devem ser esquecidos.

Outro aspecto interessante que é preciso citar é a influência de culturas de outros países que se misturam com a nossa. Por exemplo, a música “The Lost City” (lançada recentemente e que estará presente no novo álbum) conta a aventura de um arqueólogo inglês na floresta amazônica ou a “Silver Tears” que retrata os povos da bacia do rio da Prata de origem espanhola).
Em nosso canal do Youtube temos um vídeo intitulado ‘The history behind’ em que nós mesmos introduzimos a temática da música “The Lost City”. Planejamos fazer o mesmo com todas as próximas também.

Maurício Guimarães: quem curte os temas que abordamos pode acompanhar nossos canais, pois estamos prestes a abrir as discussões sobre os assuntos abordados em cada música, com participação de profissionais de História e Arqueologia. Vamos cutucar as feridas da república com picareta e sal grosso. Aguardem e confiem…

JS: Há planos para aprofundar o storytelling da banda em outras mídias: HQ’s, animações etc.?

Renato Domingos: Sim. Gostamos muito da ideia. O Armahda é uma banda que coloca a temática como protagonista sempre e ir além do espaço musical é muito interessante para atingir pessoas que eventualmente não estão acostumadas ou não ouvem heavy metal. Estamos estudando a viabilidade e buscando parceiros para isso.

Algo que nos dá muito orgulho também é que, muitas vezes, nossas músicas já serviram de referência em salas de aula. Creio que o sentimento que essas composições podem causar ajudam a nossa história a não ser esquecida.

Sobre o Armahda

A banda Armahda lançou seu primeiro álbum autointitulado em 2013, trazendo uma proposta inovadora ao cenário do Heavy Metal. Explorando temas raramente abordados dentro do gênero, a banda rapidamente capturou a atenção tanto do público quanto da mídia especializada.

O álbum recebeu elogios como:

“Este álbum é grandioso e muito rico em detalhes e também em conhecimento histórico sobre o nosso país, além de possuir músicas para fazer qualquer headbanger sair batendo cabeça” – Whiplash!

“No campo lírico surge como um sopro de ar fresco mais do que necessário à cena nacional. Porque falar de Vikings e Gnomos, se temos uma história e folclores riquíssimos? Palmas para Renato e Maurício” – A Música Continua a Mesma

“Uma das mais grandiosas obras já realizadas por uma banda nacional de heavy metal, cem por cento indicado pra quem gosta de metal de boa qualidade e se interessa pela história do Brasil” – Heavy Metal Brasil

O álbum trata de temas históricos relevantes, como a Guerra de Canudos, Duque de Caxias, e a Revolta da Armada, proporcionando uma verdadeira aula de história através das letras de suas músicas. A banda disponibilizou todas as faixas para audição gratuita no YouTube, onde os ouvintes também podem conhecer a história por trás de cada letra.

Armahda continua a missão de relembrar episódios da nossa história e entreter através de sua música, trazendo a rica e fascinante história do Brasil para o palco do Heavy Metal.

Armahda nas redes sociais:

Instagram: https://www.instagram.com/Armahdametal/

Facebook: https://www.facebook.com/Armahda

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