Com Twinfinity, End of Green consegue reinventar seu clássico álbum de 1996 e promover uma experiência intensa para o ouvinte.

O End of Green, banda alemã conhecida por fundir doom metal e gothic rock, revisita em 2025 um de seus trabalhos mais obscuros e emblemáticos: Infinity, de 1996. O álbum ressurge com nova roupagem sob o nome Twinfinity, uma regravação que não apenas remasteriza, mas reinterpreta com profundidade emocional, técnica aprimorada e uma carga lírica ainda mais intensa. A essência permanece sombria, mas ganha contornos mais definidos como se as dores amadurecessem com o tempo, mas jamais cicatrizassem.

Twinfinity foi gravado pela Reaper Entertainment e tem distribuição do Brasil pela Shinigami Records.

Foto: divulgação

A abertura com “Left My Way” dá o tom do disco: um grito existencialista envolto em distorções densas e andamentos arrastados. O vocal carrega a dor do questionamento sobre a razão da vida e da morte, evocando Deus em busca de respostas. A estrutura doom é fiel ao estilo da banda, com peso consistente do início ao fim, como se cada riff empurrasse o ouvinte para dentro de um abismo contemplativo.

Na sequência, “Away” aumenta a velocidade e insere elementos do rock alternativo dos anos 90. Com guitarras sujas e energia em alta, a música alterna entre impulsividade e introspecção, representando com perfeição os altos e baixos emocionais de quem vive à margem do entendimento existencial. No meio da faixa, uma desaceleração surpreende e entrega o ponto mais doloroso do álbum, um retrato poético e brutal da solidão e da busca por sentido. É uma das joias de Twinfinity, em que letra e música caminham em absoluta harmonia.

“Seasons of Black” mergulha em uma introspecção gélida. Curta e direta, ela ecoa as perdas — de tudo que se ama e até do que se odeia — num piscar de olhos. O instrumental segue essa lógica efêmera, com solos ágeis e uma bateria constante que sustentam a aura obscura sugerida pelo título. O vocal é a alma da composição, ajustando-se à dor como um reflexo inevitável da melodia.

Com “Infinity”, a banda entrega uma das faixas mais ambiciosas do álbum. A dualidade entre luz e sombras, representada liricamente por “velas negras”, é traduzida musicalmente por transições que parecem dividir a canção em três partes. A introdução etérea, quase angelical, colide com um refrão rasgado e visceral. O contraste é magistral e expressa a tentativa desesperada de compreender o infinito que habita dentro de cada um.

“Tomorrow Not Today” desce ainda mais fundo. Aqui, a depressão é palpável. A faixa mais lenta do álbum alterna vocais dobrados que soam como vozes internas em conflito: uma quer desistir, a outra resiste. A briga entre o chamado da morte e o impulso vital de seguir em frente transforma a música em um verdadeiro pesadelo lúcido. Baixo e bateria se destacam com linhas fragmentadas, que aumentam a sensação de colapso emocional.

“Sleep” retoma um pouco da intensidade com uma bateria mais viva e linhas melódicas que adicionam brilho ao ambiente sombrio. A letra brinca com os limites entre sonho e realidade, revelações oníricas e autoconhecimento. Além disso, a faixa é cheia de quebras de expectativa, oscilando entre o lento e o enérgico como se contasse uma história cheia de camadas, de idas e vindas inesperadas como os sonhos mesmo são.

Em seguida, “You” traz energia com riffs precisos e um ritmo cadenciado. Apesar da vivacidade sonora, a letra reflete desesperança, retirada diretamente do livro Words of Lies. A canção é breve, mas transmite seu recado com firmeza, reforçando o tom noventista que permeia todo o disco.

“Nice Day to Die” é uma oração desesperada que confronta a dor de perder alguém amado. A balança entre suavidade e agressividade volta a se destacar: guitarras melódicas e baixo pulsante se unem ao vocal carregado de emoção. A bateria intensa traduz em som a força de um luto que quase arrasta o eu-lírico para a morte.

Encerrando a jornada, “No More Pleasure” fecha o ciclo lírico com uma aceitação amarga. A dor e a solidão se consolidam como a verdadeira razão de existir. Ainda assim, a faixa surpreende ao permitir que baixo e bateria brilhem de forma inventiva, dando um respiro criativo ao doom característico da banda. O vocal se alterna entre suave e bruto, espelhando os vários estágios emocionais que percorreram todo o álbum.

Infinity vs. Twinfinity: Dualidade de Tempos

O que Twinfinity acrescenta à gravação original de Infinity? Infinity é o álbum original de 1996, enquanto Twinfinity é a nova versão remasterizada. Apesar de a nova versão trazer uma sonoridade suja e intensa, a versão de 1996 é ainda mais suja e tem um reverb no vocal e na bateria, algo bem característico da época que dão um ar mais cru e etéreo para as músicas.

Já a versão remasterizada, claro, traz um pouco mais “limpeza” para o som, porém isso não prejudica a sensação que o álbum traz. O que se percebe é o quanto a experiência é totalmente diferente e tem o poder de incluir ainda mais camadas à profundidade do trabalho. 

Capa de Infinity (1996) – Arte: Karl-Heinz Schuster; foto: Jochen Maass

Enquanto em 1996 o ar é cru e parece demonstrar um desejo de expurgar a qualquer custo as dores expressas nas letras, na versão de 2024, a qualidade mais límpida do som dá a sensação de que o trabalho é musicalmente mais intenso, sendo possível captar camadas escondidas das músicas. Além disso, o vocal está mais refinado e cheio de nuances, que não percebemos na versão dos anos 1990.

Quer fazer o teste? Ouça “Tomorrow not today” nas duas versões e sinta a diferença marcante entre as duas gravações.

Versão para Infinity (1996)

Versão para Twinfinity (2025)

O trabalho é totalmente rearranjado de modo a incluir novas ambiências e experiências para o ouvinte, que pode optar entre qual versão mais ressoa com sua vivência. Isso não tira, no entanto, a essência da banda, apenas a amplifica. Ambas as versões não perdem em intensidade, apenas mostram novas formas de ouvir.

Conclusão: a luz reside nas sombras

Twinfinity é um álbum de contrastes: sombrio, mas acessível; doloroso, mas poético; denso, mas fluido. A regravação não apenas atualiza um clássico, mas revela novas dimensões em sua estrutura lírica e musical. O vocal se mostra uma ferramenta de expressão incrivelmente versátil, e a construção sonora acompanha cada mudança emocional como uma trilha existencial. O trabalho do End of Green é um convite corajoso a encarar as sombras e entender que, às vezes, é nelas que reside a verdadeira luz.

Álbum duplo disponível no Brasil

Quem quiser sentir todas as camadas que Infinity e Twinfinity trazem, pode adquirir a versão dupla à venda no Brasil na loja virtual da Shinigami Records. Confira, a seguir a tracklist e fotos do álbum.

TRACK LIST

CD 1 – Twinfinity

1. Left My Way

2. Away

3. Seasons Of Black

4. Infinity

5. Tomorrow Not Today

6. Sleep

7. You

8. Nice Day to Die

9. No More Pleasure

CD 2 – Infinity

1. Left My Way

2. Away

3. Seasons Of Black

4. Infinity

5. Tomorrow Not Today

6. Sleep

7. You

8. Nice Day to Die

9. No More Pleasure

FORMAÇÃO

Michelle Darkness – Vocal

Sad Sir – Guitarra

Kirk Kerker – Guitarra

Hundi – Baixo

Lusiffer – Bateria

End of Green online

End of Green – Instagram

Shinigami Records – Instagram

Reaper Entertainment – Instagram

Adquira o álbum na loja virtual da Shinigami Records

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