Lançado em 10/02, “Simbiose”, do duo Hungrs, traz muito groove metal e letras que se conectam com a contemporaneidade sem ser clichê.
O duo Hungrs, formado pelo pai Marcos e pelo filho Lucca Hunger, acabou de lançar seu primeiro trabalho: Simbiose, cheio de groove metal e breves influências de thrash, death, prog e até orquestrações. Ele traz letras profundas, muito peso, velocidade e, principalmente, intensidade, que é o elemento chave desse trabalho.
Simbiose toma por base o groove metal, que é uma constante no álbum. Assim, instrumentalmente falando, você pode esperar uma bateria super enérgica, baixos marcantes e guitarras de peso, que quase não dão espaço para baladas. Essa construção prevalece em praticamente todo o trabalho, o que garante muita intensidade do início ao fim.
Agregue a isso algumas influências de death e thrash metal e até um pouquinho de progressivo. Os destaques vão para: “The seeker”, com seus riffs intensos e consistentes, que não deixam a música perder a potência. Além de uma bateria enérgica e cheia de viradas que agregam imensamente ao peso da música.
E também para “Far from home”, que é quase balada, se é que posso falar isso. Mas ela é um meio termo entre peso e leveza no álbum. Apesar de ser mais calma que a maioria, a música não perde em intensidade, já que traz versos calmos com uma atmosfera límpida e um refrão cheio de peso.

Talvez o que diferencia esta canção das demais é o seu foco na ambiência dos teclados que dão uma aura misteriosa à música. Sem isso, ela seria completamente outra. E um detalhe interessante é que todos os instrumentos foram gravados pelo Lucca Hunger.
Já o vocal, que fica por conta de Marcos Hunger, traz boas surpresas. Ainda que foque especialmente na mescla entre limpo e rasgado, ele é muito bem pontuado em algumas músicas. Como ouvimos, por exemplo, em “The seeker”, que traz um jogo de vocais bem interessante que toma totalmente a atenção do ouvinte.
Outro exemplo é “Mono no aware”. Essa música traz um vocal limpo com um tom suave e sombrio, que dá uma estranha sensação de conforto à música. Mesmo ao final, quando a voz entra rasgando, ela é, ainda assim, muito bem colocada, fazendo total sentido para essa composição.
Outros destaques vão para “Live again”, “Somebody says” e “Entwined”, que fazem a mescla de estilo vocal predominante nas músicas. E, também, “Born and raised”, que traz uma breve lembrança de Slipknot na voz, mas só no início.

Detalhes que fazem a diferença
Apesar de ser bastante focado no peso do groove, Simbiose traz alguns detalhes que dão um ar diferente ao trabalho. A intro “Soslaio” tem uma aura de sombras e mistério, que remete muito a filmes de suspense ou ficção. E essa sensação não é por acaso, já que ela faz uma referência à obra Frankenstein de Mary Shelley.
Uma sensação que se repete na faixa-título, a instrumental “Simbiose”, que é orquestrada e traz um ar grandioso. Ela é praticamente uma epopeia sonora, uma jornada que revive todas as sensações e sentimentos vividos em cada música. Refletindo os momentos de altos e baixos, suavidade e intensidade.
No entanto, ela não foi pensada para ser um resumo do álbum, ao contrário. Segundo Lucca, ela já estava pronta antes de todas as outras e nem foi pensada para ser instrumental. Ela apenas foi ganhando vida sozinha, mas era mesmo para ser “algo diferente, mais lento e épico”. Ele complementa:
Depois que ela ficou pronta, tivemos a ideia de deixá-la apenas instrumental e fazer dela a faixa com o nome do álbum. Ainda mais depois dos elementos de orquestra do incrível Vithor Moraes, a música chegou a um nível que o instrumental estava bem rico, que se “aguentaria sozinho”.
Além disso, inserções sonoras como barulho do movimento das cidades e vozes, que podemos ouvir em “Shades of sorrow”, causam a expectativa sobre a história que será contada. No entanto, esta é a música mais confusa do álbum, pois combina uma série de elementos sonoros juntamente a um vocal que não parece fazer sentido com aquela construção. É como se fossem várias músicas sendo tocadas ao mesmo tempo e, assim, ela acabou se perdendo um pouco.
Letras pra viver o dia a dia
Algo legal que “Simbiose” traz, certamente, são as letras das músicas, que refletem sentimentos diversos da vida atual. Apesar de também falar em inteligência artificial — uma temática já bastante batida — no geral, elas fogem do clichê, quando se fala em contemporaneidade.
Nisso, as canções abordam desde sentimentos de injustiça, oportunismo, sonhos que outras pessoas sonham por você, até temáticas psicológicas como a dificuldade de lidar com a depressão, a frustração e, ainda, a aceitação de que tudo é passageiro. Vale conferir um resumão de cada música, segundo os próprios compositores:

1. (soslaio):
Soslaio é a introdução do álbum. Ela não tem uma letra, mas sim uma citação do livro Frankenstein, clássico de Mary Shelley. Em tradução livre:
“Por que não morri? Mais miserável do que qualquer homem jamais foi, por que não sucumbi ao esquecimento e ao descanso? A morte arrebata muitas crianças florescentes, as únicas esperanças de seus pais amorosos; quantas noivas e amantes jovens estavam um dia no auge da saúde e da esperança, e no seguinte eram presas dos vermes e da decadência da tumba! De que materiais fui feito para resistir a tantos choques, que, como o girar da roda, renovavam continuamente a tortura? Mas eu estava condenado a viver.”
2. Live Again:
Problemas, injustiças da vida, pessoas e tudo o que nos tira a energia e muitas vezes nos deixam na escuridão, sem forças. Essa música é um convite para que cada um busque fazer uma jornada por sua própria razão e existência, ter em poder o autoconhecimento para, assim, obter a chave necessária para destrancar todas essas portas que por vezes ficam na nossa frente, impedindo o nosso caminho.
3. The Seeker:
Encarar de frente pessoas covardes que prejudicam os outros e continuam com suas vidas, como se não fizessem nada de errado. Um basta para chacoalhar um pouco esses tipos e tirar da sua vida, da sua convivência.
4. Somebody Says:
Sabe quando os pais ou pessoas em volta tentam te moldar, mostrar o caminho que deve seguir, o que deve falar ou fazer, vestir, sonhar? Quando falam pra você se calar ou afirmam que você não é capaz? Esta música te convida a mandá-los praquele lugar e escolher você mesmo o seu caminho, a sua felicidade.

5. Far From Home:
Ninguém escolhe ter depressão. Assim como não é simples dizer para alguém fazer isso ou aquilo pra sair dessa, não funciona assim. Far From Home é um convite à pessoas que estão se vendo em situações como essa tentarem falar, a fazer com que saibam que as coisas não estão bem. Ao mesmo tempo, reforçar que é importante você dizer a alguém que ela não está sozinha, que tem jeito.
6. Entwined:
A luta pelo autoconhecimento. A eterna discussão interna sobre o que quer fazer e o que acaba fazendo; sobre lidar com nossas facetas, erros e frustrações. Quase como dois seres entrelaçados em um corpo.
7. Born and Raised:
A falta de empatia, o desinteresse pelo bem do próximo. O prazer de ver o outro se dar mal; os golpes aplicados se passando por outra pessoa da família. O mau uso da tecnologia, da IA, da internet. Born and Raised é uma crítica à cultura atual, a sede pela vida perfeita que se vê nas redes, a troca dos valores.

8. Shades of Sorrow:
Uma mente adoecendo, um sentimento de raiva momentânea que tira as cores da vida.
9. Guilt From Yesteryear:
Mais um recado para pessoas que usam os outros como escada, que pisam nas pessoas apenas em busca dos próprios interesses. Um exposed aos ventos para que a pessoa sinta toda a culpa pelo que já fez.
10. Worldless:
Pânico. Fobia. Dependência. Abstinência. Sabe quando você sente que não pertence a nada, não encontra seu lugar no mundo nem uma razão para fazer ou buscar algo?
11. Mono No Aware:
O significado desse termo já traz o recado. Mono no Aware é um conceito japonês que expressa a sensibilidade para a impermanência das coisas e a beleza melancólica que surge ao reconhecer a transitoriedade da vida. Ele reflete a aceitação de que tudo é passageiro, o que desperta uma espécie de empatia ou tristeza suave ao contemplar essa efemeridade.
Esse termo é usado para descrever a consciência de que momentos e coisas belas, por mais significativos que sejam, acabarão eventualmente. A fragilidade das coisas é o que as torna mais valiosas. Porque, enfim, você nunca sabe se esta noite você deu seu último boa noite.
Ouça o álbum Simbiose nas mais diversas plataformas.
Conclusão
“Simbiose” traz um conjunto de riffs ágeis e pesados, além de uma bateria enérgica e veloz, que dão às músicas uma sensação de intensidade constante. De uma maneira geral, o trabalho é marcado pelo groove metal e, em alguns momentos, dá pra sentir umas influências de prog metal e até death e thrash, que agem como importantes elementos para garantir o aspecto de poder e peso. O vocal intercala entre rasgado e grave e, em sua maioria, se encaixa bem à proposta das canções.
O trabalho traz elementos interessantes como a orquestração, o brilho melódico em complemento aos riffs e as inserções sonoras em meio às músicas. Mas, apesar disso, o álbum acaba repetindo um pouco a mesma fórmula em todas as músicas. Quem sabe explorar mais a diversidade de linhas vocais e da bateria, assim como dos elementos sonoros, poderia torná-lo mais rico, já que tem tantas boas histórias para contar em suas letras.
Faz sentido lembrar que o título “Simbiose” (que nada mais é do que uma associação entre dois seres vivos que vivem em comum) remete à união artística e familiar do duo. Ou seja, o trabalho é um pouquinho da expressão de cada um. O que resulta numa colaboração intensa e que certamente ainda trará muita explosão criativa à medida que esta simbiose se constrói.

Simbiose – ficha técnica
Lucca Hunger: guitarras, baixo e bateria
Marcos Hunger: letras, vocais
Orquestra (Far From Home, Mono No Aware, Simbiose): Vithor Moraes (Armiferum)
Mixado e masterizado por Jonathas Peschiera (Noiseforge)
Videoclipes produzidos por Felipe Hervoso (Noiseforge)
Arte das capas: bidin Katipoğlu (Turquia)
Fotos: Paulo “Kon” Cunha (Kon Fotografia)
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