A banda The Heathen Scythe, que ganhou os holofotes do metal nacional no último ano, revela tudo sobre sua sonoridade e seu universo nesta entrevista.
O universo da banda paulista The Heathen Scythe envolve uma sonoridade que eles chamam de “post-apocalyptic pagan metal”. Nisso, eles misturam diversos estilos como metal clássico, industrial, power, doom, metalcore, black metal e outros para criar músicas pesadas, porém acessíveis.
Além disso, a banda é extremamente detalhista e cuidadosa com seu visual e a coerência de sua temática. Tendo, inclusive, figurinos criados pelo mesmo estúdio do filme “Mad Max: Estrada da fúria”.
Nessa entrevista para O Jardim Sonoro, Tato Deluca (ou Da’at) nos conta tudo sobre as composições, o visual, o conceito, o caráter “instagramável” da banda, além das expectativas para tocar no Bangers Open Air 2025 e revelar até o que não deu certo para o The Heathen Scythe. Confira.
JS: A banda é relativamente nova no cenário, mas vocês têm uma identidade super bem definida. Como surgiu a ideia para a banda e a escolha do formato que ela tem hoje?
Tato Deluca (Da’at): Quando estávamos formando a banda, resolvi que não repetiria os mesmos erros que havia cometido com o ACLLA ou bandas anteriores. Fizemos uma ampla pesquisa do que estava acontecendo no metal mundial e as bandas que estavam se destacando, então ouvi muita coisa nova para poder compor músicas mais atuais.
A banda que havia chegado em um patamar de estádio mais rapidamente, na época, foi o Ghost. Olhando a cena na Europa, de bandas como Powerwolf etc., ficava claro que figurinos, teatralidade, worldbuilding, palco, tudo aquilo era importante. Assim, criamos várias diretrizes em relação às artes da banda, cores, roupas, tempo das músicas, escalas que usamos, temas, de modo que tudo conversasse entre si. Queremos oferecer para os fãs da banda uma experiência completa e bem amarrada em todos os sentidos.
JS: O álbum físico segue a “história da banda” e traz um encarte com um mini guia de bruxaria e detalhes que complementam o storytelling que vocês criaram. Como foi a recepção do público a toda a criação? As pessoas estão conseguindo absorver?
Tato Deluca (Da’at): Os lábios da sabedoria são fechados e se abrem apenas àqueles que buscam conhecimento. Toda a obra da banda funciona em camadas, quem adquiriu o EP, normalmente adorou o cuidado que tivemos com o material, mas o absorveu em níveis diferentes.
Tem pessoas que gostaram do encarte por parecer um antigo manuscrito com um sistema mágico próprio e a descrição do ritual. Tem pessoas que se aprofundaram nas letras e tentaram fazer o ritual (que obviamente funciona), tem as pessoas que jogaram o EP na gaveta e só ouvem as músicas no Spotify. Esperamos de tudo, pois cada pessoa se relaciona com nossos lançamentos da maneira que lhe convém. A nós cabe continuar criando esse universo e oferecer a experiência no máximo de camadas que conseguirmos.
JS: Nesse meio tempo, vocês já fizeram alguns shows e até festivais com outros artistas do gênero. Como tem sido a experiência? Qual foi o show mais marcante até agora?
Tato Deluca (Da’at): Os shows têm sido experiências incríveis. Fizemos grandes amigos dentre as bandas que tocamos, a maioria das pessoas que nos assistiram não conhecia a banda e a receptividade tem sido impressionante. Cada show que fazemos são dezenas de stories que as pessoas fazem marcando a banda. E, no final, às vezes passo quase 1 hora com a roupa tirando fotos com as pessoas.
A questão do palco, figurino, tudo isso faz com que a banda seja totalmente “instagramável”, mas o que mais importa para a gente, é que o show seja inesquecível.
Até hoje não teve uma pessoa que assistiu “A banda do cara de chifre e foice” que esqueceu do show. A única dificuldade que temos é o nome da banda, que para o público brasileiro ainda soa complicado, mas vamos resolver isso já para o próximo show (não, não vamos mudar de nome rs).
Todos os shows foram importantes e abriram portas para os seguintes, não consigo mencionar nenhum específico, pois fazemos questão de entregar o melhor show todas as vezes que subimos no palco.
JS: Os figurinos da banda foram produzidos pelo SceneSick, mesmo estúdio responsável pela criação de parte dos trajes do filme “Mad Max: estrada da fúria”. Como vocês chegaram nessa decisão? Vocês imaginam trocar o visual quando um novo álbum vier ao mundo?
Tato Deluca (Da’at): Quando começamos a banda, para podermos falar com um público amplo sobre paganismo e xamanismo de vários povos diferentes e sem passar pelo julgamento do “não-ter-lugar-de-fala”, decidimos criar o conceito da seita Pós-Apocalíptica que viaja no tempo.
Dentro do orçamento que tínhamos e do que conhecíamos como pós-apocalíptico, Mad Max era o visual perfeito. Então simplesmente entrei no IMDB (Internet Movie Database) e busquei nos créditos do “Estrada da Fúria” quem eram as empresas de figurino responsáveis. Encontrei eles no Facebook, mandei e-mail e foi assim que tudo começou.
Em relação à troca de figurinos no decorrer dos álbuns, digamos que os figurinos originais vão se manter, mas sofrerão “upgrades”, mais ou menos como foi acontecendo com a armadura do Homem-de-Ferro ao longo dos filmes da Marvel.

JS: Uma curiosidade é que a foice utilizada pelo vocalista é real, não é cenográfica. Nunca houve nenhum problema ou acidente com esse ou outros objetos utilizados por vocês? Como vocês transportam os figurinos e objetos?
Tato Deluca (Da’at): A Foice real torna a experiência da plateia mais real, ela é pesada, o movimento é mais lento, o braço cansa ao longo do show e tenho que ficar trocando.
Para evitar acidentes, fazemos da mesma forma que com as máquinas de fogo, a disposição da banda no palco considera os espaços onde cada músico pode se locomover sem correr risco de se machucar – mesmo porque nos últimos shows tenho apenas 40% de visão de um único olho, o outro fica completamente cego.
No fim, cada um leva a própria roupa para casa depois do show, em malas de mão – isso possibilita que a pessoa “lave”, deixe no sol etc. Já o cenário fica guardado no estúdio da banda, de onde os carros, van etc. saem para os shows.
JS: Como acontece o processo criativo para criar histórias e músicas tão detalhadas? Como cada integrante contribui para isso?
Tato Deluca (Da’at): Tudo começa comigo. Temos um plano de lançamento de 15 anos, então os temas de cada álbum, EP, música já foram previamente planejados (claro que podem sofrer alterações no caminho, o importante é planejar para ter um Norte).
Após criar os temas do álbum, e de cada uma das músicas, vem os títulos, inicialmente provisórios, que podem ser alterados após a criação da letra.
Com o título provisório e o tema na mão, começo a criar os principais riffs, refrão, algumas ideias para verso, os elementos que quero misturar em cada som, e vou montando mais ou menos o quebra-cabeça.
Para a parte de estruturação dessa bagunça, vou na casa do Bruno Luiz (Netzah, guitarrista), que pega todas as minhas ideias, dá o toque guitarristico com riffs, ideias mais modernas, puxando a coisa um pouco pra metalcore, nu-metal, thrash.
Terminando essa parte, enviamos a música pro restante da banda, que normalmente tem algumas horas pra tirar antes de entrarmos no estúdio (no caso do primeiro álbum, a música era montada na hora do almoço, e o ensaio era às 22h. Compunhamos uma música por semana.
No ensaio, todos começam a criar suas linhas, gravamos o ensaio, todo mundo vai pra casa e tem uma semana para arredondar a música. Nessa fase, nenhum instrumento está com a linha 100% fechada, e a letra é puro “embromation”. Normalmente, durante essa semana, o Flavio Sallin (Hokhmah, tecladista) cria as várias camadas de teclado. O objetivo dele é trazer a pegada industrial (futuro) e o épico/sinfônico (passado) para as músicas.
Toda a semana, tiramos uma música nova e vamos ensaiando as anteriores, até que após uns 4 meses de ensaio, entramos no estúdio para gravar o novo álbum. É isso.
JS:- A sonoridade da banda é super rica e consegue, por si só, fazer o ouvinte mergulhar dentro do universo do The Heathen Scythe. Por onde passa a inspiração de vocês? Além de outros artistas, que outras obras ou criações são referência para vocês?
Tato Deluca (Da’at): Quando começamos a criar a sonoridade da banda, decidimos que as músicas tinham que soar “malvadonas”, não queríamos melodias bonitinhas, principalmente nos riffs. Cada música teria um momento mais “pop” em que está liberado a parte bonitinha, mas, no geral, nos inspiramos nas escalas mais sombrias como Frígio, Lócrio e Menor Harmônica.
Todas as músicas estão nessas escalas, assim como a afinação é sempre em Drop C. Tiramos essas melodias de bandas como Black Sabbath, Slayer, Savatage (especialmente na fase com Jon Oliva nos vocais), e são escalas muito usadas no metal industrial e no extremo também.
Desse modo, a banda parece soar “muito pesada”, mas devido à estrutura das músicas, a grande variação de estilos de vocal, o momento pop, não usar elementos extremos (como guturais e blast beats) por períodos prolongados e à grande variedade de partes dentro de uma mesma música, mesmo sem ultrapassar 4 minutos, isso torna o som acessível para públicos maiores, e é isso que estamos buscando.

JS: Vocês criaram uma versão para o tema oficial do jogo Viking Rise. Foi um convite? Como aconteceu? Poderia falar mais sobre?
Tato Deluca (Da’at): Ao sermos convidados para o Ragnarok Musik Fest de 2023, o produtor disse que o festival estava com um patrocínio do game Viking Rise, e que os patrocinadores queriam que uma das bandas fizesse uma versão para a música. A ideia deles era mostrar a performance da banda, o festival, etc. nos canais do game no mundo todo.
A trilha sonora foi criada pelo compositor responsável por trilhas de séries consagradas como Vikings, e essa música tema já tinha recebido um cover de um famoso Youtuber chamado Peyton Parrish.
Vimos isso como uma ótima oportunidade para aparecer para um público muito maior, mas acabou não tendo o alcance que esperávamos e agora as pessoas acham que somos uma banda de Viking Metal. Precisamos começar a lançar logo o álbum para mudar essa impressão (rs).
JS: Vocês vão tocar no Bangers Open Air. Quais as expectativas? O que vocês estão preparando para o festival?
Tato Deluca (Da’at): Quando começamos a lançar a banda no fim de agosto de 2023, o Bangers – então Summer Breeze – era nossa primeira meta a ser alcançada.
Sabíamos que não entraríamos no festival logo de cara em 2024, pois éramos uma banda completamente nova, sem nenhuma ligação com a organização do festival, nenhum nome, nada, teríamos que fazer muito barulho, contatos, mostrar um trabalho realmente impressionante, uma capacidade absurda de entreter a plateia para só assim, sermos chamados no ano seguinte.
Tocar em 2025 para a gente está sendo como um indicador, de que o trabalho foi bem feito: a divulgação, as aberturas e festivais que tocamos em 2024, os clipes que lançamos, tudo isso está funcionando e fomos recompensados com essa oportunidade.
Vamos aproveitar esse show para entregar o máximo, palco, teatralidade, performance, e estamos preparando algumas surpresas muito especiais para esse show. Então, quem estiver no Bangers domingo, “pegue a sua foice e abrace o capeta” (rs)!

Saiba mais sobre The Heathen Scythe nos canais oficiais
Instagram: @the_heathen_scythe
YouTube: @theheathenscythe
Sobre o Bangers Open Air 2025
O Bangers Open Air 2025 promete ser uma experiência inesquecível para os fãs de metal. Este evento não apenas celebra a música pesada, mas também a paixão e a energia que unem fãs de todo o mundo. Com um line-up que mistura lendas consagradas e talentos emergentes, o festival se consolida como um dos mais aguardados do ano.
Os ingressos estão disponíveis de forma online, através do Clube do Ingresso. O ingresso solidário do GRAACC está disponível no valor de R$565,00 por dia, com doação de R$20,00 à instituição já inclusa. Outras modalidades e setores estão disponíveis através do site do Clube do Ingresso. *Crianças de até 10 anos de idade não pagam entrada.

Mais informações
Mais sobre o festival: https://linktr.ee/bangersopenair
Outras informações em: https://bangersopenair.com/





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