O primeiro dia do Oxigênio Festival foi marcado por imprevistos e cancelamentos, mas teve shows excepcionais, público empolgado e até declaração em forma de tatuagem.
Por: Priscilla Xavier
Na manhã do dia 03 de agosto, primeiro dia do Oxigênio Festival, o público e produtores do evento foram pegos de surpresa com o fechamento do Campo de Marte (local onde o festival iria acontecer). De imediato, o ocorrido foi anunciado, assim como a mudança para o Cine Joia. Nisso, o line-up teve que ser enxuto e reduzido a um único palco, algumas bandas foram cortadas e o evento — que iria começar por volta de 13h — mudou para 15h. Veja o momento do anúncio.
Antes das 15h, o público já se fazia presente em frente ao Cine Joia e ouvia-se comentários de “será que o local vai comportar todo mundo?”. O clima era de desconfiança, mas logo que as portas se abriram (com atraso) às 16h45, a sensação melhorou. Deu pra notar que tudo foi organizado às pressas, mas com a agilidade possível e muito cuidado. E, apesar de uma longa fila do lado de fora, até às 18h, o Cine Joia ainda estava meio vazio, pois o público foi chegando tímido até tomar completamente o espaço e fazer a festa acontecer. Então, bora conferir tudo o que rolou no palco do primeiro dia do Oxigênio Festival?
Backdrops Falls
Backdrops Falls teve a missão e a responsabilidade de abrir o Oxigênio Festival 2024. A banda, de Fortaleza, fez um show com músicas enérgicas e também algumas baladas meio pop punk. Eles se mostraram super preparados, fazendo um som de qualidade e esbanjando carisma. Em retribuição, foram bastante aplaudidos pelo tímido público que ainda estava fazendo o reconhecimento do local. O show da Backdrops Falls, apesar de super rápido, foi bem animado. Vale conhecer mais da banda.

Horney
Assim que subiu ao palco, a banda Horney já chegou no grito para acordar o público. Eles são de Joinville/SC e seguem o estilo meio pop, meio punk com canções enérgicas e baladas com picos de energia que arrancaram boa resposta do público. Mas não se engane, pois a banda vai além disso. Apesar da veia punk, que é bem marcante e presente no som deles, Horney mostrou ter influências diversas de samba, mpb, blues e mais.
Essa sensação é passada por meio do baixo marcante e da bateria com uma levada diferenciada em alguns momentos. Certamente, essa banda tem um quê a mais, pois consegue trazer o punk tradicional, mas inserir sua própria identidade. Destaque para o estilo do baixista, que tocou sentado a maior parte do tempo, e para a vocalista, que estava super emocionada, especialmente ao final da apresentação.

Aurora rules
Já posso começar com spoiler? O show do Aurora Rules foi um dos mais empolgantes do primeiro dia do Oxigênio Festival. Apesar de alguns problemas técnicos, especialmente com o microfone do vocalista, a banda incendiou o palco do Cine Joia e abriu os trabalhos do stage diving com um show insano que levantou totalmente o público.
A sonoridade deles envolve post-hardcore, mas com grande influência do metalcore, o que deixa o som mais pesado e absurdo ao vivo. Assim, os vocais guturais se somam aos berros e tomam conta do lugar com a intensidade dos graves.
Na apresentação, destaco a música Calma Negativa, que tem um sample do Hermes e Renato e um áudio que diz “poderia ser um sertanejo, mas tem potencial” (retirado do videoclipe). Eles brincam com a ideia de ser de Goiânia e fazer um som bem diferente do habitual da região. Esses são os agroboys que a gente gosta.

Bayside Kings
E não tem sossego, logo depois o Bayside Kings subiu ao palco e conseguiu elevar a intensidade da galera trazendo mais um dos melhores shows da noite. Como o tempo de troca de uma banda para outra foi curto, o grupo de Santos pegou o público já com sangue nos olhos.
Assim, o Bayside Kings incendiou o Cine Joia trazendo seu hardcore punk e mais um mega aparato de boias, macarrões de piscina e bolas que completavam o tanque pronto para o stage diving . Era difícil saber para onde olhar, pois o espetáculo estava em todo lugar.
O som do Bayside Kings é explosivo e cheio de atitude, o que torna a banda a trilha perfeita para o Oxigênio Festival. Seus discursos politizados e muito envolvimento com o público complementam a festa demonstrando o que é a verdadeira atitude HC, que é a cara do festival. Showzaço!

Chris Cresswell
Após a energia caótica do Bayside Kings, Chris Cresswell (do Hot Water Music) subiu ao palco com seu violão e disse que não tinha como fazer as pessoas pularem em stage diving ou bater cabeça, mas que tinha uns cases de baixo pra jogar, se fosse o caso.
Munido apenas de um violão e muito carisma, ele conversou com o público e tocou uma série de clássicos de sua carreira. Na plateia, ouvia-se comentários como “foi pra ver ele que eu vim de tão longe”. O público na frente do palco era totalmente apaixonado e cantava todas as músicas em coro, ao que ele comentou sobre a conexão com os fãs: “vocês sempre pedem exatamente as músicas que estou prestes a tocar”.

Ao final da apresentação, uma fã subiu ao palco e chamou Chris para contar uma história inusitada. O Jardim Sonoro conversou com ela para entender a situação: Carol Oliveira disse que, certa vez, encontrou Chris Cresswell após um show e pediu para ele escrever um trecho de sua música preferida em um papel. Depois de um tempo, ela transformou o texto em uma tatuagem em sua perna e foi o que ela resolveu lhe mostrar naquele momento. Quando questionada sobre o que ele achou quando viu a tattoo, Carol completou: “ele ficou em choque”. Ouça o áudio da nossa conversa com ela contando mais detalhes:
Dominatrix
A banda Dominatrix está na ativa desde 1995 e faz um HC feminista muito bem colocado e tecnicamente perfeito, além de ser notável o entrosamento das garotas no palco. A sonoridade, por sua vez, segue a vibe de 1990 e é fácil visualizar um show delas nessa década, já que elas conseguem nos transportar completamente para essa época.
O público, no entanto, voltou a ficar tímido. Houve pouco mosh e stage diving e, também, uma roda bastante modesta. Algo que a banda sentiu e até chegou a perguntar se as pessoas estavam cansadas. Apesar disso, teve muito aplauso e gritos de incentivo. Elas saíram do palco com um “valeu” um pouco apertado. O show foi tecnicamente bom, mas não cativou muito o público.

Hateen
Em um clima completamente nostálgico, o Hateen desfilou clássicos de sua carreira no primeiro dia do Oxigênio Festival. O público estava super empolgado e cantou todas as músicas, especialmente “1997”, que ganhou um coro todo especial. Além disso, teve covers pra completar a conexão com o público. A sonoridade do emo 2000 foi super bem aceita e encantou os presentes. A banda aproveitou, ainda, para parabenizar a equipe do Oxigênio e as bandas que tiveram que ser cortadas do evento. O show foi impecável, demonstrando uma harmonia e entrosamento que só quem toca há tanto tempo pode ter.

Hot Water Music
Impossível ficar parado: se pudermos resumir o show do Hot Water Music, essa seria a frase. Os fotógrafos sofreram por um clique, pois quando menos esperávamos, vinha alguém voando ao nosso lado.
O que importa é que a espera valeu a pena e a banda entregou tudo que os fãs estavam esperando. O show foi absolutamente enérgico e cheio de hits que não saiam da boca do público. Quem viu o show do Chris Cresswell mais cedo, com seu violão (e não conhecia sua banda principal), não era capaz de entender o que estava acontecendo.
No fim das contas, Hot Water Music desfilou sucessos, tirou o cansaço de quem passou horas esperando e fechou com chave de ouro o primeiro dia do Oxigênio Festival. E eles ainda deixaram um gostinho para o dia seguinte. Afinal, Chuck Ragan ainda prometia uma apresentação solo no segundo dia.

Balanço do primeiro dia de Oxigênio Festival
Infelizmente, no primeiro dia, não foi possível levar a experiência que o Oxigênio Festival havia prometido, mas — sem sombra de dúvidas — foi um dia brutal e memorável. No fim das contas, o Cine Joia e a produção do evento se saíram super bem, seja na estrutura, seja na organização. O espaço, no entanto, realmente ficou um pouco pequeno para a quantidade de pessoas e volta e meia algum problema técnico acontecia no som, mas nada além do normal.
O que mais chamou a atenção foi o quanto o público e as bandas não abandonaram a ideia do Oxigênio Festival e, além de comparecer em peso, fizeram o festival acontecer. E, se restava alguma dúvida se o festival “floparia” depois dos imprevistos, esta foi embora completamente e, no final, o saldo foi totalmente positivo. Apesar dos perrengues, o Oxigênio Festival entregou muito e fez jus ao espírito do rock independente, que passa perrengue, sofre, mas que vibra com bandas de tirar o fôlego.





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