A banda Locomotiva Elétrica, de Venâncio Aires/RS, transformou jam sessions em um EP instrumental cheio de nuances e referências chamado “Os Animais que nos Habitam”.
O novo trabalho do power trio instrumental Locomotiva Elétrica “Os Animais que nos Habitam” é uma máquina do tempo sonora, que conecta passado e presente de forma única, harmônica e cativante.
A promessa é de que “Os Animais que nos Habitam” pode nos levar a uma viagem hipnótica com seu som instrumental e cheio de nuances e referências. Para isso, ele transita entre o Stoner Rock, o Rock Psicodélico, o som dos anos 60 e 70 e o Post Rock.
E para conhecer mais detalhes desse trabalho incrível, o trio Locomotiva Elétrica topou conversar com O Jardim Sonoro.

JS- Como foi a experiência de gravar um trabalho em tanto tempo (entre 2018 e 2023)? Muita coisa mudou durante esse período? Vocês acreditam que têm um sentimento diferente de quando começaram e quando terminaram as gravações?
Isso aconteceu pois a banda entrou em um hiato em 2018. Nosso guitarrista se mudou para Florianópolis e ficamos sem tocar. Como tínhamos as composições finalizadas, decidimos gravar à distância mesmo. Uma primeira versão surgiu em 2019, com todos os instrumentos gravados, porém acabou engavetada. Depois veio a pandemia e ficamos em dúvida sobre lançar ou não. Em 2022 voltamos, e tínhamos essas músicas praticamente prontas, faltava mixar e masterizar. Mas aí surgiu uma insatisfação com as guitarras que haviam sido gravadas lá atrás e gravamos tudo de novo. Hoje vemos essa decisão como a mais acertada, pois a banda ganhou muita experiência de estúdio nesses anos todos e conseguimos um resultado muito superior ao anterior. Em relação ao sentimento, sempre acreditamos nas músicas que compõem o EP. Elas foram compostas no nosso auge criativo naquele momento, entre 2016 e 2017, e sabíamos que elas tinham muito potencial. Então, foi muito bom poder lançá-las agora sem ficar com aquela sensação de que podia ter sido melhor.
JS- Os títulos das músicas são super específicos (como “Cabo Canaveral” e “O outro que também sou eu”). A se pensar pelo título do o EP: “Os Animais que nos Habitam”, pode-se dizer que há uma referência filosófica que rege a criação do EP?
Nós gostamos do conceito de álbum. Capa, título, ordem das músicas, tudo isso é muito importante e está presente em todas as obras que gostamos. É meio inconcebível ouvir um disco fora da ordem, como o Dark Side of the Moon, por exemplo. Perde totalmente o sentido. Não só discos considerados mais progressivos, mas discos como os do Black Sabbath, por exemplo, também. Existe um motivo para tudo estar daquela forma, com aquele conceito. Acho que vem daí, essa pode ser a filosofia de criação que usamos. Nos baseamos naquilo que gostamos. Já sobre os títulos das músicas, são bem difíceis de achar. Em algumas ocasiões eles surgem automaticamente durante a composição, como a “Sonho Lúcido”, que tem esse nome por episódios de insônia vividos pelos integrantes, e a Funeral, que tem esse nome devido a, literalmente, funerais em que comparecemos na época da composição. Os outros nomes e o nome do EP vêm de poesias escritas pelo guitarrista Murilo.

JS- A banda começou por meio de jams sessions entre os integrantes. Como foi pra vocês transformar a experiência do improviso em composições únicas? Vocês executam as músicas na íntegra quando tocam ao vivo ou rola sempre o momento jam?
Nós nos reuníamos e fazíamos as tardes de jam, sem compromisso algum. Foi após um festival Pira Rural, em que vimos diversas bandas fantásticas, que chegamos à conclusão que iríamos tentar compor músicas. Foi muito inspirador. A transição acabou sendo um tanto natural, já no primeiro ensaio fizemos uma música. Depois foram surgindo as outras, que se tornaram a base do nosso primeiro EP, que de certa forma foi bem rápido. Nos shows temos alguns momentos de improviso na hora dos solos. Fica na escolha de cada integrante se quer executar o solo gravado ou improvisar. Já tivemos mais momentos de jam, possuímos uma música chamada “Água da Jamaica”, que começa como um reggae e depois vira pura improvisação e fazíamos uma versão da música “Careful With That Axe, Eugene”, do Pink Floyd. Temos que resgatar essas duas músicas!
JS- A música “O outro que também sou eu” é super experimental, indo do pop ao shoegaze com guitarras e sintetizadores. O que essa intensidade e quantidade de influências querem passar? O fato de a banda ser multifacetada?
Essa música teve um processo diferente de todas as outras que compomos. Foi a última que fizemos antes do hiato. Toda a estrutura dela até a parte em que começa o experimentalismo já estava definida, mas o resto não. Então gravamos a bateria e compomos a guitarra e o teclado em cima da bateria. No início era pra ser um longo solo, mas não achávamos o caminho, nada ficava legal. A inspiração para criar todas as camadas acabou vindo da música “Lazarus” do David Bowie. Surgiu uma ideia e depois outra e mais outra. Na hora de escolher qual usar, decidimos que iríamos usar todas juntas e acabou se formando essa coisa meio shoegaze. Não foi exatamente planejado, com a intenção de demonstrar alguma coisa, foi algo mais natural que simplesmente aconteceu.

JS- Como a própria essência do jazz, as músicas são cheias de quebras e dinâmicas. Como esses elementos contribuem para expressar os sentimentos que vocês querem passar nas canções? Como vocês discutem isso entre si durante o processo de composição?
Gostamos da dinâmica, de ter as partes pesadas e de repente passar para uma parte mais calma ou psicodélica. Acho que vem das jams que fazíamos, onde esses momentos acontecem o tempo todo. Na hora de compor é um tanto automático. Sempre vem aquela coisa do “acho que agora podia ter uma parte mais calma e depois explodir”. É engraçado, porque as pessoas geralmente relacionam isso ao rock progressivo, mas na verdade acho que vem muito mais de bandas como Pixies e Nirvana, que são o completo oposto, mas também possuem essas dinâmicas.
JS- A capa do EP foi desenhada pelo artista Wendel Araújo. Você poderia comentar um pouco sobre o conceito dela e sobre como ela se relaciona com o EP?
A capa foi desenhada ainda em 2019. Passamos as músicas cruas para ele, algumas ideias de capas que gostávamos na época e o nome do EP. Ele se inspirou nas músicas, principalmente Terra Seca e Funeral e criou este conceito. O poema que inspirou o nome do EP fala sobre animais que habitam em cada ser humano, como seres espirituais, que ao cair da noite se libertam dos corpos e vivem as vidas que os seres humanos deveriam estarem vivendo. Mas quando chega o amanhecer, são tragados de volta e ficam presos durante todo o dia. Wendel não teve acesso ao poema, mas, de certa forma, a capa acabou representando esse conceito. Os dois gnus podem ser estes animais, e o buraco negro pode ser o ser humano acordando para mais um dia sem sentido. Enquanto acorda, vai puxando os animais de volta para a jaula.

JS- A banda já tocou em diversos festivais desde o seu surgimento. Qual deles foi o mais marcante e por qual motivo?
É difícil falar de um só, mas posso citar alguns: na nossa cidade natal existe um festival chamado Vênus Rock, que acontece há muitos anos e reúne todas as bandas da cidade em uma super estrutura. O primeiro que tocamos, em 2015, foi muito marcante pois foi apenas nosso 4º show, o maior até então, e não esperávamos uma reação tão legal do público.
A reVirada Bruxólica foi muito legal também, nosso primeiro show fora do RS, e também foi muito no início, logo depois desse Vênus Rock que citei acima. Primeiro que já foi uma grande surpresa sermos chamados para o festival, e segundo que quando tocamos a galera curtiu muito além do que imaginávamos que iria acontecer.
O Pira Rural também foi muito marcante, pois, como falamos antes, foi o motivo de termos acreditado que podíamos fazer música autoral e instrumental.
Também tocamos no Ensaio Geral, que é um festival muito mais voltado à música eletrônica, mas conta com um palco rock. A reação do público quando tocamos foi muito legal, com muita energia. Com certeza ficou marcado na história da banda.

Sobre o EP “Os Animais que nos Habitam”
O power trio Locomotiva Elétrica é de Venâncio Aires/RS e o EP “Os Animais que nos Habitam” está disponível nas plataformas de streaming desde 9 de fevereiro, pelo selo Abraxas Records. Não deixe de ouvir as 5 faixas cheias de psicodelia e referências sonoras.
TRACKLIST:
1. Sonho Lúcido
2. Funeral
3. Terra Seca
4. O Outro Que Também Sou Eu
5. Cabo Canaveral

Informações técnicas:
Gravado nos estúdios Infrasound, Studio CB Áudio e Galápagos Rising.
Composições: Murilo Neumann.
Arranjos: Murilo Neumann e Lucas Stein.
Teclados e Sintetizadores: Lucas Stein.
Guitarras: Murilo Neumann.
Bateria: Alexandre de Bortoli.
Baixo: Diony Hartmann (O Outro Que Também Sou Eu); Péco Moreira (Cabo Canaveral); Lucas Stein (Sonho Lúcido, Funeral e Terra Seca).
Mixagem e Master: Cris Oliveira.
Arte da capa: Wendel Araújo.
Conheça mais da banda Locomotiva Elétrica:





Leave a Reply