Yön constrói pontes musicais com canções esquecidas, espiritualidade pagã e vozes femininas que ecoam como feitiços antigos.
Nascida de encontros improváveis e paixões compartilhadas, a Yön é um projeto musical brasileiro que mergulha profundamente na tradição nórdica para construir algo inédito no cenário nacional. Formado exclusivamente por mulheres, o grupo mistura pesquisa histórica, vivência espiritual e uma performance ritualística que transforma cada show em uma experiência sensorial.
Com repertório baseado em canções tradicionais da Era Viking e composições autorais inspiradas em textos antigos, a Yön conquistou espaço em grandes eventos como a CCXP, o Ragnarok Musik Fest e, mais recentemente, abriu os shows do Skáld (França) e do Tuatha de Danann (MG), consolidando-se como uma das principais representantes do folk nórdico no Brasil.
Nesta entrevista, as integrantes falam sobre suas origens, os desafios de fazer música de nicho em um país tropical. Além dos planos de internacionalização de um trabalho que vai muito além da música e toca a espiritualidade, reencontro com raízes ancestrais e protagonismo feminino.
Raízes do Norte no Brasil: como nasceu a Yön
JS: O que motivou vocês a montarem um projeto com músicas nórdicas no Brasil?
Foi uma conjunção de fatores. Algumas integrantes já conheciam bandas do estilo folk nórdico e achavam interessante as técnicas de canto, os instrumentos diferentes e os temas cantados. A motivação foi surgindo conforme o grupo foi se formando, também. Cada nova canção e referência pesquisada, mais interesse surgia.
É um mundo muito rico. Houve também uma questão de timing: com o sucesso das séries do assunto (Viking, The Last Kingdom, House of the dragon) a gente viu um nicho de mercado se abrir. Então houve uma mistura de interesse e boa abertura, com parceiros de trabalho estimulando essa vontade de fazer.
JS: O projeto existe há 3 anos. Ao longo desse tempo, que experiências foram mais significativas para vocês?
Sobram momentos significativos nesses 3 anos. Cada ano foi uma experiência diferente. Quando o grupo se formou em 2022, a gente não tinha essa pretensão toda, mas de cara já surgiram eventos abertos para a gente. Os shows do primeiro semestre da banda são…hilários. Era tudo muito cru, a gente não sabia muito bem o que tava fazendo, mas o público foi sendo formado desde o primeiro show, então guardamos com carinho aqueles primeiros eventos.
Tem eventos muito marcantes: A primeira vez que tocamos no Fabrique, abrindo para o concerto dA Magnífica Orchestra de Músicas do Mundo, que foi o nosso primeiro grande público; O primeiro Ragnarok Musik Fest que fizemos, também no Fabrique Club, com a casa lotada; Quando participamos do Odin’s Krieger, abrindo para o Dogma e Wind Rose; A participação na CCXP; e agora, abrindo pra Skáld e desbravando novos públicos, participando do Ostara Festival, em BH.
- Leia também: Yön lança nova versão de canção sueca “I Riden Så”
JS Conte brevemente a história do grupo. Como vocês se conheceram e se uniram para o projeto? Como funciona a pesquisa musical?
As integrantes se conheceram, majoritariamente, nas aulas dA Magnífica Orchestra de Músicas do Mundo, uma orquestra popular regida pelo Maestro Gabriel Levy. A Carol e a Bea, que já estavam mais inseridas no mundo “nórdico”, foram chamando outras mulheres a fim de pesquisar as canções e cultura e assim nos juntamos nós 6, uma chamando a outra, meio “encontro de escolhidas”.
A música veio muito com artistas pesquisadores dessas tradições como o grupo Värttinä, as cantoras Myrkur e Eivor, o trabalho do Einar Selvik com o Wardruna…Fomos encontrando no caminho pessoas e grupos que ajudaram muito a pesquisa não só musical, mas da cultura viking em geral, como o Núcleo de Estudos Vikings e Escandinavos da Universidade da Paraíba, a Vila Viking Brasil, o pesquisador Jackson Crawford e o professor de galdr Lars Magnar.
O trabalho vai além da música, as nossas bases também passam pela religião, filosofia e vivência no recriacionismo histórico.

Raízes antigas em tempos modernos
JS: O grupo começou a compor suas próprias músicas recentemente. No que vocês se inspiram? Como é compor música antiga nos tempos atuais?
A inspiração para compor vem principalmente do estudo das Eddas e dos textos históricos da Era Viking. Também vem de nossas vivências com a espiritualidade e o contato com os Deuses do panteão nórdico. Compor hoje com esses textos antigos passa por uma leitura muito pessoal de gosto e ritmos que fazem sentido para nós.
Nos inspiramos, claro, em sonoridades vindas das bandas que amamos da Escandinávia, mas tudo passa pela nossa própria referência e experiência. A música é universal, quando a gente pensa em folclore e tradição, tem tanta coisa que se cruza nas tradições entre o norte e o sul, e a gente se aproveita disso.
Somos uma banda brasileira que olha com atenção a cultura viking, não por viralatismo, mas por ver algo tão mágico quanto as nossas próprias raízes.
JS: “I Riden Så traz uma figura feminina como protagonista da história. Como vocês escolhem o que vão apresentar? Tem mais a ver com a temática da canção ou com a sua musicalidade? Comente um pouco dos temas de algumas músicas?
Tem um pouco das duas coisas. A gente teve muita influência, no começo da banda e na construção do repertório, de uma artista chamada Myrkur. Ela tem uma pesquisa muito profunda sobre as tradições escandinavas.
I Riden så é uma música importante porque ela vem das baladas medievais suecas de 1600, quando o cristianismo estava soterrando as tradições pagãs. Essa canção, além do protagonismo feminino, também traz esse momento de disputa e defesa das tradições pagãs e essa força e importância da voz das mulheres.
A gente gosta muito de poder contar histórias com personagens femininas, mas não é mandatório. O que mais nos chama atenção e define o repertório é a canção ser tradicional, ou ter um tema que realmente honra as tradições e isso passa por muitos assuntos como vida, morte, guerras, sobrevivência e natureza.
JS: Qual o maior desafio pra vocês? Creio que a língua deve ser um deles.
A língua hoje é o menor dos desafios. Não são línguas difíceis. Claro, que no começo era tudo meio alienígena, mas fomos aprendendo. Não somos fluentes nas línguas que cantamos, mas aprendemos os fonemas, alguns sentidos, e nos acostumamos com eles…
Hoje o maior desafio é equilibrar os pratos de produzir música, compor, fazer shows e ter as nossas vidas pessoais andando. Somos um grupo de mulheres com responsabilidades, carreiras, filhos, ninguém aqui vive só da música, porque é muito difícil. Já é muito difícil viver de música no Brasil nos estilos mais populares, imagina num estilo de nicho e pouco conhecido como o folk nórdico.
Então temos vidas duplas, e isso impacta muito no tempo de trabalho com a música. Além de que ter banda é um baita investimento, então demanda bastante organização da gente. A grande vantagem de sermos mulheres adultas é que temos muita segurança para entender nossos desejos e nossos limites.
Palcos mágicos e promessas de futuro
JS: No último mês, vocês abriram os shows do Skáld (em São Paulo) e do Tuatha de Danann (em Belo Horizonte). Como surgiu o convite? Como foi a experiência?
O convite do Skáld veio da produção do evento. Já tínhamos conhecido os produtores da Overload a algum tempo e estávamos apresentando o nosso trabalho. Foi um processo de convencimento do nosso lado e deles arriscarem. Deram esse voto de confiança pra gente, e a gente agarrou com muita alegria.
Foi uma noite mágica pra gente, uma honra e tanto. O Ostara Festival já era um evento que a gente estava costurando a um tempo com a organização de lá. E foi incrível. Nós sabíamos que o evento era grande, mas foi muito surpreendente a energia do público. Foi bem legal, dividimos o palco com a banda McMiners e com o Tuatha de Danann, foi muito divertido. E foi uma aventura, porque terminamos o show com a Skáld e viajamos direto para Belo Horizonte. Deu tudo certo.
JS: As apresentações ao vivo são super emocionantes. Como vocês esperam que o público vivencie a música que vocês tocam? O que as pessoas mais relatam?
O nosso show tem essa pegada mais imersiva e nós acreditamos que estar junto ouvindo música é cocriar um momento mágico. Acontece muito de tocarmos em eventos em que a gente chega e a energia do lugar muda. A gente acredita que tem uma força ritual no nosso show e a gente respeita muito essa vibe e o público que nos acompanha já entende essa nossa linguagem.
Nós começamos o show com um galdr que transforma o palco em um espaço mágico e sagrado e isso é muito importante porque cria essa aura de conexão. O público nunca é só um espectador no nosso show, ele constroi aquele momento com a gente, então a gente sempre espera essa entrega também, essa troca. A gente se emociona muito no palco com essa energia.
JS: Quais os planos para o futuro da Yön?
O plano é compor novas músicas e gravar o EP para lançar no primeiro semestre de 2026. Queremos muito avançar no processo de composição, é uma área que queremos investir. E esse EP é importante para darmos o passo que mais sonhamos que é vender o show internacionalmente.
Tem muitos eventos interessantes para o nosso estilo musical aqui na América Latina e na Europa. Um grande sonho é sair em tour por aí. Os deuses vão dizer quando for o momento certo.

Yön online:
https://www.youtube.com/@yon.nordic
https://www.instagram.com/yon.nordic
Assessoria: Alessandra Braz – Favorite Assessoria





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